sexta-feira, 11 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 8

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 8ª parte, onde destaco mais três espetáculos:


ESPETÁCULO LOCAL
"SALOMÉ DECAPITADA - Trabalho em andamento"
A interpretação de Renata de Lélis em "Salomé Decapitada" foi magnetizante. Dirigido pela Luciane Panisson e pertencente a Cia Teatro Íntimo, que produziu excelentes trabalhos nos trouxe a saga da filha de Herodíade, que decapitou um dos profetas precursores da era cristã, João Batista. Na peça, o profeta a vê como uma criatura do demônio e rejeita o amor da virgem. O espetáculo mostra o mito de Salomé revivendo todos os passos do romance que a levou à morte. Por este trabalho Renata de Lélis recebeu o Prêmio Açorianos como melhor ator, aliás prêmio merecido, pois a experiencia em assistir era ótima. Gosto muito do trabalho da Renata e pude conferir sua entrega em vários outros trabalhos. A peça tinha uma trilha linda e uma cabeça de João Batista perfeita. Imagens para ficarem na memória.

ESPETÁCULO NACIONAL

"TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA" Armazém Cia. de Teatro
Adoro o trabalho de Armazém Cia de Teatro. O 1º trabalho que assisti foi "Pessoas invisíveis" e me apaixonei. Depois assisti "Toda Nudez será castigada" e depois "Inveja dos Anjos". Todos excelentes. Fora o box de Dvd que pude assistir as demais montagens como "Alice através do espelho", "Da arte de subir em telhados". O que eu mais gosto neste coletivo é o poder de reinvenção que eles tem. Cada montagem é diferente da outra. Outo ponto essencial é a dramaturgia própria que eles constroem, o que não foi o caso de "Toda Nudez" que é do genial Nelson Rodrigues. O espetáculo é arrebatador, o elenco é fantástico, e a Geni da Patrícia Senlock é divina! Assisti duas vezes a este trabalho de tão bom que é, a 1ª foi no Poa em Cena a anos atrás e no ano passado eles retornaram no Palco Giratório e fui novamente admirar a este estupendo espetáculo. Outro dado importante quando lembro da Armazém é a construção dos cenários que são sempre bem bolados e impactantes. 

ESPETÁCULO INTERNACIONAL

"A VIDA NA PRAÇA ROOSEVELT (Das Leben auf der Praca Roosevelt) ALEMANHA
Assistir a este montagem de Dea Loher foi descobrir um Brasil sob o ponto de vista estrangeiro, um Brasil  que transborda laranjas no palco ao invés de bananas. O espetáculo era eloquente, vibrante, magnetizante, e apesar da língua, transbordava uma mistura de luxuria e mentira, comédia e morte. A peça alemã pega a mega São Paulo e filtra perfis de pessoas entrelaçando suas histórias. Lembro do cenário branco, onde os atores atiravam muitas laranjas, das classes de escolas e da maquiagem dos atores que pareciam zumbis.  Um bom momento do Porto Alegre em Cena. 


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 7

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 7ª parte, onde destaco mais três espetáculos:


ESPETÁCULO LOCAL
AS MAL CRIADAS
Um espetáculo que ficará na memória dos palcos gaúchos. Três atores ótimos Tiago Real, Fernando kike Barbosa (na época apenas Kike Barbosa) e Sergio Etchichury. A começar pelo título "As Mal Criadas", uma adaptação da obra "As Criadas" de Genet. O espetáculo era uma celebração, uma obra erótica e altamente poética
com uma subvertida atmosférica religiosa. Sou apaixonado pelos textos de Genet e este espetáculo conseguiu um excelente resultado frente a este autor maldito. O Teatro de Arena foi o palco perfeito para abrigar esta montagem que deixou completamente inebriado pela proposta.  Um jogo de ilusão, identidades e teatralidade. Um dos bons momentos do teatro gaúcho!

ESPETÁCULO NACIONAL
PARTIDO
Grupo Galpão de Minas Gerais é referencia em teatro para muitos e para mim não é diferente. Já assisti outros trabalhos do Grupo, mas este se diferencia dos demais justamente por mostrar uma outra faceta do Galpão, que sempre tinha o teatro popular como foco, e aqui busca outra vertente orientada pelo fabuloso Cacá Carvalho. O resultado foi um espetáculo altamente poético, com uma riqueza estética, recheada de signos e a interpretação do coletivo é um dos grandes destaques. A direção do Cacá Carvalho é magistral, você sai hipnotizado do espetáculo repensando o seu modo de fazer e que é possível sim participar de uma experiencia criativa de alto gabarito. A cena inicial é um grande momento teatral, aqueles atores surgindo detrás daquelas malas, e os atores jogando com a dualidade, meio humano, meio animal foi fantástico. Tudo isso partindo do texto de Ítalo Calvino "O visconde partido ao meio". Um dos melhores espetáculos do Galpão.

ESPETÁCULO INTERNACIONAL
CANÍBALES - Uruguai
"Caníbales" foi um espetáculo inesquecível para quem conseguiu assistir a apresentação dentro do Porto Alegre em Cena em 2005. Uma criação de Alberto Rivero com o Grupo Comedia Nacional do Uruguai. O espetáculo foi apresentado na Terreira da Tribo e aconteceu um fato bastante curioso com os figurinos desta peça. Pelas imagens do programa divulgados o espetáculo tinha figurinos super elaborados para falar sobre presos de  Auschwitz, mas devido a problemas com a alfandega, os mesmos não foram liberados e não chegaram a tempo em Porto Alegre. Este fato não tirou toda a grandeza desta peça que foi um marco na minha vida. O espetáculo tinha uma ambientação bacana, o público ficava em arquibancadas semelhantes a beliches de dormitórios de presos, em dois andares e o espetáculo acontecia num corredor sendo que os atores ficavam muito próximos da platéia, sufocando ainda mais o espectador. A peça cruza descendentes de vítimas de Auschwitz sobreviventes e como gosto muito deste tema da guerra, do holocausto, me fascinei com o espetáculo que ficou calcado apenas na interpretação de um mega elenco formado por 40 atores, que fizeram a peça sem seus figurinos e adereços, apenas com roupas de trabalho e isto me fascinou, imagina se estivesse com tudo completo. 
A mais importante companhia de teatro do Uruguai, a Comédia Nacional apresentou um espetáculo que descreve sobre a diversidade de caráter e personalidade. O autor George Tabori não tem limites na sua audácia, misturando com suprema irreverência, humor e horror. O elenco define de forma extraordinária o momento mágico e assustador que o público vive durante duas horas. A história apresenta descendentes de vítimas de Auschwitz que se reúnem com dois sobreviventes para entender o que ocorreu no campo de concentração. Uma história é contada entre o passado e o presente.

Não deixe de comentar e acompanhar as próximas postagens deste especial.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 6

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 6ª parte, onde destaco mais três espetáculos:


ESPETÁCULO LOCAL
"E LA NAVE NO VA"
Foto de Angela Spiazzi - Arquivo pessoal


Concebido pela Terpsí - Teatro de Dança este espetáculo me fez enxergar o teatro realizado sob outra ótica. Pude deslumbrar este hibridismo entre linguagens: dança, teatro, música, artes visuais e muito mais. O espetáculo era maravilhoso, lembro do vigor e entrega daqueles bailarinos. Este espetáculo foi originalmente concebido como uma interferência urbana dentro do aeromóvel. O espetáculo resgatava elementos cênicos utilizados em obras marcantes da cia e utiliza a dança- teatro como linguagem. Lógico que o título do espetáculo remete ao filme "E la nave va" do Fellini. Um espetáculo que vai com certeza continuar vivo na minha memória, assim como outros trabalhos do Terpsí e de sua mentora Carlota Albuquerque do qual sou fã!





ESPETÁCULO NACIONAL

"POBRE SUPER-HOMEM"
Um espetáculo perturbador e sensacional. Este espetáculo me revelou o trabalho de um diretor paulista do qual eu adoro: Sérgio Ferrara. Sempre que ele vem a Porto Alegre corro para assistir, depois de "Pobre Super-homem" já assisti com direção dele "Abajur Lilás", "Mãe Coragem" com a Maria Alice Vergueiro no papel título e ainda o espetáculo "A Última viagem de Borges" o qual eu não achei tão bom quanto os demais. Mas "Pobre super-homem" foi um espetáculo que merece estar nesta lista pela bela encenação proposta por Ferrara, personagens imersos na solidão, personagens sufocados por papéis sociais onde vinhas a tona temas como depressão, medos e angústias, pânico e homossexualismo. Me lembro da maravilhosa atuação da atriz Rosaly Papadopol e do ator Marco Antônio Pâmio e lógico que não poderia esquecer da entrega do ator Olayr Coan. Um lance bacana é que a peça tinha algumas projeções que lembravam HQ's onde eram projetados apenas o que os personagens estavam pensando diferente do que falavam. Certamente mais uma peça daquelas que valem muito a pena recordar.

ESPETÁCULO INTERNACIONAL
"UN ANGE PASSE-PASSE" França



A cia. "À Fleur de Peu" trouxe a Porto Alegre o espetáculo "Un ange passe-passe" com a brasileira Denise Namura. O espetáculo era belissímo, mergulhado naquele universo branco e de pelúcia. Além de belo trouxe o rigor e a precisão de um trabalho coreográfico, com cada movimento sendo preenchido pela intensidade do jogo teatral. “Un Ange Passe-passe" é um trabalho fruto de uma pesquisa cujo objetivo é a fusão das formas de expressão de diversas linguagens cênicas, baseada no uso do corpo inteiro como instrumento polivalente, sendo o intérprete o centro vital do trabalho. Neste duo, Denise Namura e Michael Bugdahn abordam o que chamam de o ponto zero da comunicação: o silêncio. Eles nos livram a quinta essência do seu 'savoir-faire'. Um verdadeiro hino ao silêncio que une, através de uma cascata de milhares de gestos precisos e sutis, o humor à emoção e a generosidade ao domínio perfeito de um estilo inimitável. INESQUECÍVEL!!!!


No próximo post terá a 7ª parte deste especial. 

Dica: BAGASEXTA DEBUTANTES


Para quem já curtiu a Bagasexta ou está a fim de conhecer fica a dica: BAGASEXTA DEBUTANTES, no ia 25 de novembro no Centro Cenoténico. Eu adorava a Baga e reviver com o grande elenco é muito bom.

sábado, 5 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 5

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 5ª parte, onde destaco mais três espetáculos:
ESPETÁCULO LOCAL


"ESTE ANO O TRIGO NÃO ESTÁ BOM"
Esta peça tinha no elenco dois atores que arrasavam em cena: Marcos Contreras e Felipe Vieira de Galisteo, e isto foi o que me marcou. A forma como eles se entregavam em cena era verdadeiro e extremamente belo. Assisti a bastante tempo e ainda lembro de certas imagens que ficaram na minha lembrança. Um bom espetáculo do Grupo Virtù( hoje radicado em Brasília), com direção de Paola Oppitz.  
Este Ano o Trigo Não Está Bom é um espetáculo que retrata a luta de classes sociais, invertendo os papéis de opressor e oprimido. Propõe um questionamento, por meio de uma crítica social contundente.
O espetáculo apresenta a relação conflituosa entre indivíduos de posições sociais antagônicas: um comemora a derrota do inimigo, o outro demonstra como a morte de seu cachorro é mais importante do que todas as conquistas imperialistas. A partir deste encontro, inicia-se um embate, recriando-se situações de personalidades históricas na visão do oprimido.
Conheça mais o trabalho do Grupo Virtú clicando AQUI!
 ESPETÁCULO NACIONAL
"NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ"
Este espetáculo me pegou de tal forma que não me segurei e fui as lágrimas, de tão bom que era. A começar pelo texto do Bosco Brasil, cuja ação se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas, já no final da Segunda Guerra Mundial, narra a história de um judeu polonês, refugiado de guerra. Tentando conseguir seu visto de entrada no Brasil, acaba interrogado por um agente alfandegário e ex-torturador dapolícia política de Vargas na sala de imigração do porto do Rio de Janeiro em abril de 1945, gerando um grande embate ideológico que discute a condição humana e os horrores do preconceito político e racial, onde cada oponente procura buscar e negar suas diversas identidades. O texto faz uso da metalinguagem, a começar por Segismundo, nome emprestado de A Vida É Sonho, do autor espanhol Pedro Calderón de la Barca. Uma passagem da mesma obra também é citada literalmente. O elenco era maravilhoso com Tony Ramos e Dan Stulbach, os dois estavam ótimos, mas o Dan consegue ser magistral. A encenação é despojada, centrada principalmente nos atores. Um grande espetáculo que depois foi transformado em filme com o título de "Tempos de Paz".
ESPETÁCULO INTERNACIONAL
"FAUSTO" de Eimuntas Nekrosius - Lituânia
Lembro que este espetáculo deu um baita trabalho, tanto para a produção do Em Cena, quanto para o público que foi pego de surpresa, pois estavam previstas três apresentações no Theatro São Pedro e por questões alfandegárias a carga com cenários e figurinos não conseguiu chegar a tempo e aconteceu que o espetáculo pode cumprir apenas uma apresentação no Salão de Atos da UFRGS. Deu trabalho mas a recompensa foi maravilhosa, pois o espetáculo era genial, grandioso e com a marca registrada de Nekrosius que tem em suas produções um forte rigor estético, político, altamente teatralizado e extremamente belo. O espetáculo vale muito a  pena. Imagens extremamente impactantes que derrubam qualquer fronteira linguística. Uma imagem que lembro da peça é quando Fausto vende a sua alma em troca de conhecimento, onde os atores abrem livros e constroem um tablado somente de livros abertos e depois começam a abanar com cartolinas, simplicidade rica em significados que deixa qualquer um boquiaberto. Já virei fã do Nekrosius. 

Amanhã tem a parte 6 despe post especial.
Um grande abraços a todos!  


Vídeo Leitura Dramática Ubu Rei


Registro do Jornal O Progresso. Dia 4 de Novembro de 2011.

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 4

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 4ª parte, onde destaco mais três espetáculos:
ESPETÁCULO LOCAL


"AUTO DA COMPADECIDA"
O "Auto da Compadecida" é uma daquelas peças que me pegaram desde que adentrei ao antigo espaço do Depósito de Teatro que ficava lá na Beijamin Constant. A peça pertence a boa safra que o Depósito produziu, e que ainda continua produzindo. Um espetáculo encantador que com certeza ficou retido em minha memória. Primeiro pelo projeto do Roberto e sua trupe, de encenar dramaturgos brasileiros, chegando ao Suassuna, numa montagem que era cheia de acertos, desde a bandinha de música que executava a trilha ao vivo, lembro até hoje de uma das canções "Compadece meu irmão, compadece minha filha, compadece todo mundo, auto da Compadecida..." Lembrar desta peça é bacana, é voltar atrás e relembrar aquele elenco maravilhoso que tinha a Liane Venturella fazendo a mulher do padeiro, esta atriz é grande, e aqui ela estava extraordinária. Tinha também  Marcelo Aquino, Nelson Diniz, Sandra Possani, Mário de Ballenti, Heinz Limaverde, Jeferson Raschevski, Caia Costac om a direção certeira de Roberto Oliveira, só fera!!! Só de lembrar já dá vontade de rir. Com certeza um dos melhores espetáculos que Porto Alegre já produziu.


ESPETÁCULO NACIONAL

"R&J SHAKESPEARE - JUVENTUDE INTERROMPIDA"

Este espetáculo ainda está bastante fresco na memória, pois assisti em setembro deste ano. A peça é maravilhosa, os atores são excelentes, a direção é precisa, a narrativa é fluída. Abaixo reproduzo o comentário que fiz sobre a peça: 
DRAMATURGIA X TEATRALIDADE

Ainda estou digerindo ao que assisti na semana passada no palco do Teatro Roberto Athayde Cardona em Montenegro.R&J Shakespeare - Juventude Interrompida. Gostaria de começar a analisar o espetáculo sob dois aspectos. Dramaturgia e Teatralidade.
Sob o ponto de vista dramatúrgico, diria que o texto do bardo é o principal atrativo, pois bem, diria, mas no caso desta montagem, existem várias possibilidades de dramaturgia(s): a dramaturgia do texto, que tem como interface a intertextualidade, mesclando a história doas amantes de Verona a história de quatro jovens alunos de uma rígida escola católica. O texto de Joe Calarco é uma recriação inventiva do texto de Shakespeare, que me faz relembrar a montagem que a Cia. dos Atores fez recriando outro texto de Shakespeare, "Hamlet", o espetáculo era "Ensaio.Hamlet", uma desconstrução e apropriação do texto do bardo inglês. Em Hamlet tínhamos uma recriação do texto, uma loucura com muitas possibilidades onde o texto do Shakespeare foi um pretexto para a criação de um espetáculo ousado, genial e criativo. Uma das montagens que eu mais gostei. Aqui, em "R&J..." Shakespeare triunfa, assim como toda a produção. O mote é o texto, mas as opções não se esgotam nele, pelo contrário, o texto é preenchido com ricas possibilidades cênicas, o "teatral" se instala na cena, de tal modo que o espectador embarca na proposta e se permite a compartilhar com aqueles alunos uma experiencia cheia de magia e rupturas. A teatralidade está em todos os detalhes da montagem, na proposta de desnudar a ilusão da cena, ou seja, sabemos que aquilo que estamos assistindo é teatro, são quatro alunos que estão representando os personagens de "Romeu e Julieta" e somos alertados a todo tempo desta condição meta-teatral, seja nas rupturas, nas transformações de um personagem para outro, nas inserções musicais ou até mesmo na utilização do belíssimo cenário. A teatralidade é muito latente, quando uma régua vira máscara, folhas de papel viram as flores do casamento, réguas são espadas e eu como espectador acredito, acredito e muito naquilo tudo, e se acredito é porque há VERDADE! E por falar em verdade, tem que se destacar o excelente elenco, os quatro atores são bárbaros e fazem milagre em cena. Mas não sei se serei injusto em destacar  o trabalho de Rodrigo Pandolfo, que faz o personagem de Julieta, além de outros personagens. O trabalho dele é impecável e intenso, alcançando uma verdade e coesão que seria difícil de algumas atrizes imprimir a esta personagem, pela força poética e entrega, sem exageros na interpretação. Todos os atores tem grandes momentos, mas Pandolfo rouba a cena. Tanto que o espetáculo foi quatro vezes aplaudido em cena aberta e ovacionado no final. O ator que faz a ama também tem grandes e divertidos momentos, assim como os demais. 
Mas não poderia encerrar sem parabenizar o diretor João Fonseca que soube explorar ao máximo todas as possibilidades da cena, uma encenação criativa, limpa, repleta de signos, mas, o mais significativo é que consegue colocar Shakespeare no seu devido lugar: nas graças do povo. Consegue manter um clima leve e potente na maior parte do espetáculo culminando na tragédia dos amantes de Verona, numa montagem eletrizante. Um dos melhores espetáculos dos últimos anos. 


ESPETÁCULO INTERNACIONAL

"HAMLET" de Eimuntas Nekrosius - Lituânia
GENIAL!!!!! 
Este espetáculo me levou a olhar um mapa mundi e ver onde fica a Lituânia, e é longe, do outro lado do planeta! Isso não foi barreira para eu conhecer e me encantar com a proposta de Eimuntas Nekrosius. Um espetáculo que era pura teatralidade, um jogo de opostos, o fogo e o gelo em cena. Depois deste espetáculo passei a ter este encenador como referencia em criação teatral, anos depois eles retornaram a Porto Alegre e fui assistir também e me identifiquei cada vez mais. Apesar da barreira da língua, o espetáculo se sustenta pelo seu caráter universal, principalmente pela cenografia alegórica. Uma bela contribuição as platéias gaúchas. 

Amanhã tem a 5ª parte desta postagem especial. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 3

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 2ª parte, onde destaco mais três espetáculos:


ESPETÁCULO LOCAL


"AOS QUE VIRÃO DEPOIS DE NÓS - KASSANDRA IN PROCESS"   Ói nóis aqui traveiz


Uma vivência teatral! Falar do "Ói nóis" para mim é sempre bacana, adoro o trabalho do grupo, que é uma das melhores referencias do teatro gaúcho e nacional pela radicalidade e transgressão teatral. Curto tanto o trabalho deles, que "Kassandra" fui assistir pelo menos cinco vezes, sempre levava algum amigo para conhecer o trabalho e aproveitava para rever o espetáculo e a cada dia saia cada vez mais cambaleante com a proposta, cada vez saía diferente e transformado. Para mim um dos melhores trabalhos produzidos no estado e porque não dizer no Brasil e mundo! Cada vez que eu adentrava no espaço, a terreira, minha percepção se deslocava para Troia, pela capacidade que o espetáculo teatral tinha em transportar o espectador a outras dimensões. 
 O Ói Nóis, com 30 anos de existência, trabalha em duas vertentes – o teatro de rua e o teatro de vivência. Kassandra se insere nessa segunda corrente, amplamente influenciada pela teoria de Artaud. O espetáculo, além de mergulhar o espectador em um ambiente todo propício, toca o público através de todos os cinco sentidos. Sons, cheiros, imagens, texturas, sabores se aliam para criar uma atmosfera que nos arrebata em um espécie de transe dionisíaco/reflexivo.
O espetáculo recebeu 4 Troféus Açorianos 2003: Melhor Espetáculo, Produção, Trilha Sonora e Atriz Coadjuvante. 

ESPETÁCULO NACIONAL


"SHI ZEN, 7 CUIAS" Lume Teatro
Um dos espetáculos mais belos que já assisti. Um forte apuro técnico, vigoroso e maravilhoso!!! O Lume consegue me surpreender sempre com suas incansáveis pesquisas que culminam em espetáculos que provocam a platéia. Inesquecível este encontro com as sete cuias. Um espetáculo de quadros em movimento, sem palavras, com música variada e canções acústicas, unindo a elegância e o minimalismo do “Butoh-Ma” do coreógrafo japonês Tadashi Endo com a força impetuosa e a vitalidade deste renomado grupo teatral brasileiro do LUME. Os sete atores da companhia utilizam seus corpos como recipientes para contar uma versão particular do ciclo da vida. Por vezes dramática, outras vezes poética ou grotesca – do inocente começo até o espasmódico avanço da evolução, e culminando em uma visão apocalíptica, a tensão do espetáculo se desenrola entre o mundo natural e o humano. A estrutura aberta do espetáculo sugere mais do que mostra, desafiando as narrativas tradicionais e convida cada espectador a ser um participante ativo na criação de sua própria dramaturgia nesta experiência teatral de refinada técnica.


ESPETÁCULO INTERNACIONAL


"EN UN SOL AMARILLO - MEMÓRIAS DE UM TREMOR


Outro belo espetáculo foi uma grande surpresa vindo da Bolívia, o Teatro de Los Andes, que mexeu muito comigo, pela narrativa e imagens eletrizantes. Espetáculo marcante.
Testemunhos reais de fusão com imagens eletrizantes, Teatro de los Andes, um dos grupos mais influentes e de renome teatral na América do Sul, recria a atmosfera febril da Bolívia em 1998, quando um forte terremoto abalou as fundações do país. Atemporal em sua urgência, En Un Sol Amarillo lança luz sobre a calamidade e da corrupção que se seguiram. A emocionante história contada com humor, pathos, simplicidade e criatividade, uma vez que emite um alarme para eventos muito semelhante tanto no exterior como em casa.








Amanhã tem a 4ª parte!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS Parte 2

Dando sequencia a este post especial sobre os espetáculos que fizeram a minha memória trago hoje a 2ª parte, onde destaco mais três espetáculos:

ESPETÁCULO LOCAL


"A bota e sua meia"



Este é um dos melhores espetáculos que já assisti. Lembro-me até hoje daqueles personagens caipiras, da cenografia, da maquiagem daqueles personagens que iam se decompondo em cena. Uma produção impecável da Cia Faces e Carretos. Impossível não reconhecer o trabalho do Camilo de Lélis, que acompanho sempre suas montagens e a dupla de atores Ligia Rigo e Lutti Pereira. 
Primeira montagem da peça do dramaturgo alemão Herbert Achternbusch no Brasil, com direção de Camilo de Lélis, A Bota e Sua Meia é um dos maiores sucessos de crítica do grupo teatral Face & Carretos.
Esta é uma tragicomédia em que um casal de idosos rememora incidentes de seu passado. Em cinco quadros, de aproximadamente 15 minutos cada um, o enredo alterna momentos de fantasia e realidade. Lélis transfere a ação do interior da Alemanha para o interior do Brasil, e os personagens se comunicam com forte sotaque caipira. A história dos dois idosos tem como pano de fundo a degradação física e mental dos personagens, que em cena perdem literalmente pedaços do corpo. A encenação funde, com propriedade, uma atmosfera poética e surreal com a visão de mundo cínica e desesperançada do texto original de Achternbusch. 
A cenografia da peça reproduz, tridimensionalmente, uma singela casinha de madeira, vista de dois diferentes pontos, conforme a manipulação de sua estrutura. Numa das configurações, tem-se a visão da parte interna da habitação, onde o velho, com dificuldades de locomoção, permanece a maior parte do tempo. Em outra, vê-se a parte externa da construção e do terreno que a cerca, território dominado pela velha, que toma para si a manutenção da casa, em uma inversão dos tradicionais papéis masculino/feminino.
A monatgem recebeu cinco prêmios Açorianos, concedidos pela Secretaria da Cultura de Porto Alegre, incluindo melhor espetáculo e direção, e sete troféus no 2º Conesul de Teatro, em Pelotas, Rio Grande do Sul, entre os quais, os de melhor espetáculo e direção. O espetáculo viaja por sete capitais do Brasil, e é apresentado na Argentina, em Portugal e na Alemanha.





ESPETÁCULO NACIONAL


"ENSAIO.HAMLET"
Desconstrução Shakespereana de tirar o folego que esteve no Poa em Cena. Shakespeare estilhaçado, mas tampouco traído, pela proposta ousada da Cia dos Atores. 
Primeira montagem de um texto da literatura clássica universal pela Companhia dos Atores, o espetáculo sintetiza a narrativa da história de Shakespeare e a envolve em interferências retiradas do processo de encenação, das relações do ator com suas personagens e das livres associações que a ação propicia aos criadores.
O espetáculo começa com todos os atores em cena e o primeiro texto, dito por Fernando Eiras, conta que, durante os ensaios de outro espetáculo dirigido por Enrique Diaz, ele pedia aos atores que fizessem acontecer 'alguma coisa de real'. Essa chave aciona diversos procedimentos da encenação, desde o uso de elementos concretos até a revelação do conflito, da crítica ou da perplexidade do ator em relação ao personagem que está encarregado de representar.
O Rei Cláudio queima as próprias mãos com água fervendo; Ofélia se afoga em uma seqüência de garrafões d'água que ela mesma joga sobre si; Hamlet argüi a mãe com uma câmera na mão e a expõe em telas; Ofélia morta entra como bife cru que, passado a ferro, faz subir o cheiro de carne queimada; Rosencrantz e Guildenstern adentram a cena como bonecos infláveis na forma de Jaspion (super-herói de seriado japonês); a atriz Bel Garcia revira uma bolsa procurando Ofélia e reconhece sua aversão a adolescentes; enquanto fala da irmã, Laertes se despe de suas roupas, veste um vestido, e ao final desta ação se transmuta em Ofélia; a rainha Gertrudes infantiliza o filho, que reclama de suas roupas apertadas, pequenas demais para ele; no monólogo de Hamlet, os três atores que se revezam na personagem estão juntos em cena e partilham o texto.



ESPETÁCULO INTERNACIONAL


"PARA AS CRIANÇAS DE ONTEM, HOJE E AMANHÃ" Pina Bausch


Com certeza outro espetáculo que deixará saudades aqueles que assistiram. Para as crianças de corpo e de espírito, para os que brincaram de pega-pega, pular corda, esconde-esconde e correram até ficar sem ar. Aos que apreciam a arte da dança, "Para as crianças de ontem, hoje e amanhã" foi o espetáculo da Companhia Tanztheater Wuppertal, que assisti e me encantei com a direção artística e coreografia da bailarina alemã Pina Bausch, grande referência mundial da dança-teatro, mas ouvir falar é uma coisa e poder ver ali, ao vivo, um referencial tão forte e aquilo tudo te emocionar e nortear o teu trabalho é bem diferente. O grupo expressou a magia de ser criança por meio de movimentos que levaram ao público as sensações catárticas do ato de brincar. Universal pelo tema e pela linguagem, o espetáculo que trata do amor e da infância, mistura cenas de dança e teatro e impressiona pela sensibilidade artística, pelas expressões corporais e pelo ritmo dinâmico, transformando a apresentação em um misto de sentimentos, do drama à alegria, surpreendendo o público a cada momento. O cenário é limpo: paredes brancas que contrastam com o fundo preto de duas grandes portas laterais e uma imensa janela no fundo do palco. Entre o preto e o branco, bailarinas que entram trajadas em vestidos floridos e transparentes, despojamento que se completa com a dança delicada e intensa. A formalidade do figurino dos homens - calça e camisa social - é quebrada pelos movimentos leves e descontraídos. Tem início a brincadeira: uma interação alegre, em que a frieza do preto e do branco é quebrada pelo colorido das coreografias e das expressões corporais. Muitos solos de dança ao longo do espetáculo, com uma trilha sonora diversificada que vai do jazz à música popular brasileira, incluindo músicos como Naná Vasconcelos, Caetano Veloso, Shirley Horn, Nina Simone, Gerry Mulligan e Marlyn Mason. 


Amanhã tem mais três espetáculos.

"KLEITON e KLEDIR" em Montenegro


Amanhã, dia 3 de novembro as 20h o Sesc Montenegro trás a Montenegro  a dupla "Kleiton e Kledir" para um show na Estação da Cultura ao ar livre e com ENTRADA FRANCA, com a doação espontânea de 1 kilo de alimento. 
Dizem que fazer canções é uma maneira de abrir o coração e contar histórias. É o que Kleiton & Kledir fazem nesse novo trabalho, marcado pelo símbolo da amizade e do prazer de compartilhar com os outros o que se tem de melhor. Nesse circuito, a dupla sobe ao palco em formato mais acústico em DUO, K&K com seus violões e violino, para relembrar antigos sucessos como Deu pra Ti, Vira Virou, Nem Pensar, Paixão...  mas principalmente para mostrar as novidades do repertório de “AUTORRETRATO”, CD/DVD de inéditas, que vem recebendo elogios da crítica de todo Brasil. A canção título é uma conversa entre dois amigos, onde cada um fala de si e revela seus segredos. “Coisa boa é um amigo / Pra poder conversar / E trocar figurinhas / Tu me ensina a viver / Que eu te ensino a sonhar”. “Pelotas” é um hino de amor à cidade natal dos irmãos. .

MEMÓRIA DA CENA - Especial 30 ANOS

"A memória é a capacidade de adquirir, armazenar (consolidação) e recuperar (evocarinformações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória biológica), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial). A memória focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e deteriora-se com a idade. É um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias, ajudando a tomar decisões diárias."

A partir de hoje, dia 1º de novembro e pelos próximos 30 dias  estarei postando aqui no blog espetáculos que assisti e que de certo modo persistem na minha memória. Neste mês, dia 15 estarei completando 30 anos de idade e neste tempo já assisti muita coisa bacana que influenciaram minha vida. Então a cada dia evocarei fragmentos desta memória da cena dividida em três partes: 30 espetáculos locais/ 30 nacionais/ 30 internacionais, ou seja, tentarei rememorar ao todo 90 espetáculos que fizeram parte da minha vida. Esta é uma forma de relembrar e de certo modo homenagear quem fez parte da minha vida teatral. 
Vou começar então com três espetáculos abaixo: 
POSTAGEM Nº 1. 

ESPETÁCULO LOCAL


"As aventuras do avião vermelho"


Este foi o primeiro espetáculo do qual eu me lembro de ter assistido e que marcou minha vida. Uma adaptação do homônimo de Érico Veríssimo com direção de Dilmar Messias. Era um espetáculo que povoa minha memória até hoje, pela beleza e encantamento que me provocaram. Lembro dos bonecos, dos efeitos e da história do Ferdinando e sua viagem a bordo de um avião vermelho. Me marcou muito este belíssimo espetáculo. Creio que na época o elenco era formado pela Fernanda Carvalho Leite, Luciana Éboli e Daniel Lion. O ano era 95, ano em que eu iniciei minhas atividades teatrais. Inesquecível, por isso deve ser lembrado nesta minha retrospectiva. 


ESPETÁCULO NACIONAL
"Aldeotas"

Escrita pelo dramaturgo Gero Camilo, Aldeotas, impactou pela simplicidade e complexidade de empregar a palavra como eixo essencial de um trabalho que evidencia a poesia e o trabalho do ator. Assisti este trabalho em 2004 no Porto Alegre em Cena, com o próprio Gero Camilo e Marat Descartes no elenco desta produção que levava a cena a memória de dois amigos. O despojamento e requinte das interpretações foi o que marcou neste espetáculo. Lembro do tapete ao centro da cena, único elemento que evocava a memória daqueles personagens. Boa parte do encantamento da apresentação repousa sobre a performance de Gero Camilo. A transformação gradativa de sua personagem de criança em adulto se dá por meio de uma modulação de voz precisa e uma escolha competente de vocabulário e postura. Exemplo disso vê-se logo nas cenas iniciais, em que o menino Levi descreve sua viagem ao centro da terra, onde conhece o reino das formigas. Mais um daqueles espetáculos que ficam retidos na memória e no coração. 

ESPETÁCULO INTERNACIONAL
"LES ÉPHÉMÈRES"

Esta é uma das maiores experiências que tive enquanto espectador de teatro. Maiores em todos os sentidos: estético, ideológico, emocional, duração (8 h de duração), espaço. O Theatre du Soleil e sua mentora Ariane Mnouchkine encantou a todos os gaúchos com a passagem do coletivo pela capital. Foi sensacional a experiencia diante deste magnifico espetáculo. Tudo era muito mágico e maravilhoso. Uma aventura inesquecível!!! E no mês que vem eles retornam a Porto Alegre. 

Amanhã tem mais três espetáculos que estão na minha memória.