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quinta-feira, 10 de maio de 2012

DIÁLOGOS PARA ESCAPAR por CÁSSIO AZEREDO


O Blog Válvula de Escape, segue com a série de entrevistas com diversos profissionais das Artes Cênicas do estado e do Brasil, dentro do projeto "DIÁLOGOS PARA ESCAPAR". Projeto que pretende utilizar este espaço para deixar escapar a voz dos arquitetos da cena atual. E nesta edição, postamos a entrevista de Cássio Azeredo, realizada via e-mail por Diego Ferreira. Cássio Azeredo é diretor do Teatro do Clã e sócio da Marca Produções. Ator e professor de teatro no projeto Fábrica de Sonhos, graduado em Teatro na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. 


Como o teatro surgiu em sua vida?
Geralmente as pessoas tem uma resposta romântica para esta questão... A minha é bem comum e sem graça, como são algumas coisas boas da vida. Sempre gostei de arte. Na escola estive a frente de iniciativas culturais, e estar em grupo sempre foi uma prática. Mas o primeiro contato se deu a partir do convite de uma colega para fazer um curso de iniciação teatral que estava sendo oferecido aqui em Montenegro, na Cia de Teatro Tio Tony. De lá pra cá, essa experiência foi se intensificando e passando por várias etapas: inicialmente o sonho, os passos iniciais, uma possibilidade real, a atividade docente, uma oportunidade profissional, a Graduação em Teatro, o grupo profissional e tudo mais. Ainda não sei se é isso que eu quero pra mim, mas já estou com essa dúvida há 11 anos.

  Teatro do Clã: Contextualize e divida conosco a idéia de formar um grupo, o histórico e dos projetos atuais e futuros.
A criação desse grupo é o resultado natural de uma busca incessante por um trabalho consistente em arte. Uma busca minha e também do meu parceiro de caminhada, Marcos Cardoso. Acho que o Clã é uma porta aberta que dá passagem para essa vontade que já existia em potência dentro de nós.
Por muito tempo priorizamos nossa atividade docente. Ela sempre foi e ainda é muito gratificante, mas é também uma experiência limitada, pois o processo com os alunos tem um caráter cíclico que não nos permite aprofundar. Também brincamos que esse grupo é “uma desculpa esfarrapada pra juntar um monte de gente legal em prol de um objetivo comum”.
São muitos projetos que nos inspiram atualmente. Primeiramente queremos seguir com o Rei Cego, aprofundando e nos desafiando dentro dessa proposta, além de continuar o treinamento pessoal que estamos desenvolvendo. Paralelo a esse trabalho artístico temos uma preocupação muito grande em viabilizar nossas produções, formar nosso público, estabelecer nossa sede e nos consolidar enquanto grupo.
O Rei Cego - Elenco e Diretor- Foto: Jenifer Berlitz


 Como é o processo de trabalho do Teatro do Clã?
Acredito que o processo no Clã ainda não “é”. Ele está sendo construído constantemente. Contudo é possível apontar algumas linhas gerais. Temos uma divisão do grupo em duas esferas que se complementam e se contrapõem a todo instante. Uma diz respeito ao trabalho artístico/criativo. Que compreende treinamento, pesquisa e montagem de espetáculos. A outra esfera, chamamos de “institucional” que é a produção, divulgação, projetos, vendas, enfim, a esfera da viabilidade das nossas produções. Obviamente o trabalho artístico é o centro das nossas inquietações, porém sem um olhar sério e inovador sobre a viabilidade, o nosso fazer artístico permanece preso. Repito inúmeras vezes que também compete ao artesão criar as ferramentas necessárias para qualificar a sua criação.
Quanto ao processo de trabalho pratico temos alguns princípios que nos guiam, porém estamos em busca de uma poética que nos identifique e nos sustente. Algumas possibilidades são inspiradoras como a musicalidade, a teatralidade assumida, o trabalho coletivo e o resultado estético sustentado por uma pesquisa intensa. Quanto ao Rei Cego, ele é resultado direto de um processo de colaboração e criação em grupo. Ele foi um esboço, uma forma inicial que aos poucos foi ganhando cor e expandindo a própria forma. A criação de matrizes pré-expressivas (continuação da minha pesquisa de TCC) e mais recentemente a inspiração nos princípios da biomecânica nos auxiliaram nessa criação.

Quais os pontos positivos e negativos em se produzir teatro no interior do estado?
Tenho duas visões quanto a esta questão. A primeira é que “teatro é teatro em qualquer lugar” e que estas limitações geográficas não devem ser empecilhos ao processo. Até porque acredito que o mais difícil no trabalho com teatro é encontrar bons parceiros para suar a camiseta e isso independe do lugar em que se está inserido.
Por outro lado, sei que as oportunidades são maiores para quem produz nos grandes centros. Além disto, há um pré-conceito com o que é produzido fora da capital, embora as universidades (UERGS, UFSM e agora em Pelotas) estejam contribuindo para desmistificar esta questão.
Um exemplo dessa situação é que recentemente fomos impedidos de concorrer ao Prêmio Tibicuera de Teatro Infantil por estarmos legalmente registrados em Montenegro e por “não pertencermos ao circulo porto-alegrense”. E o mais paradoxal é que estávamos realizando temporada em Porto Alegre, dentro de um teatro municipal, com pessoas da equipe residindo na capital. Sabemos que o prêmio é promovido pela prefeitura de Porto Alegre para incentivar os artistas locais, mas entendemos que esse pensamento vai na contramão da efervescência cultural que está surgindo com os grupos do interior do estado e principalmente por Porto Alegre tratar-se de um grande centro que abriga artistas de diferentes cidades.


 Em 2011, eu assisti ao trabalho de vocês “O Rei Cego” e escrevi minhas impressões. Desde lá, percebo que vocês estão em constante trabalho e reciclagem na manutenção do espetáculo. Na ocasião escrevi: "O Rei Cego é um trabalho digno de aplausos, um dos destaques da cena gaúcha, que ainda vai dar muito que falar, pela profissionalização, criatividade e entrega do coletivo. Escrevam o que estou dizendo, este trabalho vai estar nas principais mostras de teatro do País”.  Algum tempo já se passou, e isto vem se concretizando. Na tua opinião, quais são os fatores que auxiliam na manutenção e visibilidade que o espetáculo vem ganhando?
Suor, insistência e renúncias seriam pistas iniciais para apontar uma possível resposta. Acho que um pouco de egoísmo também. O Rei foi criado para satisfazer uma vontade nossa. Queríamos um teatro que fosse interessante para nós, antes de querer que ele significasse para mais alguém. Como dificilmente ficamos satisfeitos, essa busca constante nos move em busca de lugares novos o tempo todo. Acho que a preocupação do grupo enquanto instituição tem sido outro fator determinante nesta questão.

    Cássio, você se desdobra em muitas funções: ator, diretor, professor, produtor, pai, iluminador, etc. Sei que não tem como separá-las, mas se você tivesse que escolher uma só, em qual situação você se realiza mais? Fale um pouco sobre cada função e a MARCA Produções. 
Confesso que por vezes esse “vendaval” de funções ainda me assusta e me impede de aprofundar algumas questões. O que me consola é perceber que as essências estão conectadas e convergem para o mesmo lugar. Cada função tem seu sabor, e estou aprendendo a não apressar as coisas e aproveitar com intensidade a experiência do momento. Quero atuar. Meu ultimo trabalho foi o Mendigo e o Cachorro inspirado no texto do Brecht, trabalho resultante do meu TCC. De lá pra cá eu tenho só dirigido e isso me dá muito prazer, porém subir no palco está me fazendo falta.
A Marca Produções Culturais é a casa dos nossos projetos e existe como ferramenta para a viabilização das nossas produções. Administrar a empresa dá bastante trabalho, mas é outra aprendizagem que apesar de ser chata e burocrática, me motiva na medida em que sei que toda esta organização reflete diretamente na viabilidade do produto artístico.

     Duas questões: Como você vê o papel da crítica e como você recebe as premiações, se puder divida conosco os prêmios já recebidos por ti e pelo grupo, e como estes prêmios redimensionam a tua carreira? 
Compactuo com a ideia do Fabinho (Fábio Castilhos), quando ele diz que os prêmios trazem um selo de legitimidade para o trabalho. Ganhei sete prêmios como melhor direção em festivais nos últimos dois anos. Isso motiva, mas não é o que move de fato. O que estamos conseguindo com o Rei, o retorno do público, o carinho que recebemos por onde passamos são bem mais significativos.
Quanto ao papel da crítica, eu acho um ato extremamente generoso quando feita com responsabilidade. Alguém que dedica um pouco de seu tempo/conhecimento para falar sobre nosso trabalho merece ser ouvido com carinho e atenção. Lidamos muito bem com isso.
O Rei Cego. Foto: Jenifer Berlitz

    E o Teatro-Educação? Relate um pouco sobre tuas experiências junto ao projeto Fábrica de Sonhos e como tens acompanhado a trajetória dos alunos, desde a entrada, a permanência e saída? Como ocorre essa transformação através da arte-educação na vida dos teus alunos?
A Fábrica de Sonhos em pouco tempo já é um projeto consolidado. Hoje atendemos 500 alunos divididos em cinco cidades. Criamos a Fábrica para ser um projeto “pequeno e precioso”, lugar onde reverberam as descobertas do grupo profissional (Teatro do Clã). Dentro da nossa metodologia, temos diversos módulos de trabalho que vão desde os primeiros passos até o experimento de linguagens específicas. Atendemos desde crianças na pré-escola até “meninas de terceira idade”. Transitamos entre duas abordagens principais: a essencialista e contextualista. Ora privilegiando o fazer teatral, ora utilizando-se do teatro como um meio para a formação do indivíduo e ainda trabalhando com as duas possibilidades juntas.
O aluno que tem um contato com a arte teatral acaba por ter uma visão diferenciada de mundo e a partir desta vivência transita do papel de expectador para um ser ativo na sociedade em que está inserido. Além disso, acredito que ele aprende a gerir conflitos a partir da compreensão das diferenças do outro, diferenças estas que são geradoras dos grandes problemas da sociedade atual. Felizmente hoje temos alunos que estão ingressando na universidade, e também que estão trabalhando diretamente conosco, alguns grupos como o GFAC – Grupo Farroupilha de Artes Cênicas vem desenvolvendo um trabalho bastante consistente e caminha para a profissionalização.

  O que te faz ESCAPAR tratando-se de teatro?
Envolver-se e apaixonar-se num processo criativo.

 Quais espetáculos têm assistido? Como você enxerga a atual situação das artes cênicas no Rio Grande do Sul?
Assisti a dez peças teatrais nos últimos dois meses. Destaco Nossa vida não vale um Chevrolet com direção de Adriane Mottola, O Fantástico Circo teatro de um homem só, da Cia Rústica e Tartufo do grupo Farsa. O estado tem uma produção diversificada e alguns grupos com trabalhos de muita qualidade e que são referências como o Teatro Torto, UTA, Santa Estação, Terreira da Tribo entre outros. O grande desafio é contribuir para a criação de um sistema que consiga dar melhores condições de circulação aos grupos para que as produções não fiquem restritas apenas a sistema de financiamentos públicos e editais.

 Quais as expectativas com as apresentações do Rei Cego no Palco Giratório e circuito Teatro a Mil do SESC?
Que estas apresentações abram muitas portas para novos projetos e que sejam um momento prazeroso para aqueles que optaram em dividir conosco parte do seu tempo.

  Gostaria de compartilhar mais alguma coisa, pensamento ou idéia neste espaço? Fique a vontade.
Agradecer pelo espaço e pelo trabalho que vens desenvolvendo através do seu blog (que é uma referência em teatro) e pela parceria que ao longo do tempo estamos mantendo. Foi um exercício interessante refletir sobre a nossa prática, e compreender melhor alguns conceitos que nos eram escuros.
Queria ainda compartilhar o endereço do nosso site www.marcaproducoes.com.br para que conheçam nossos projetos.

Finalizo com um pequeno trecho do texto de Peter Brook que tem sido uma inspiração:

“Nunca acreditei em verdades únicas.
Nem nas minhas nem nas dos outros. (...)
Mas descobri que é impossível
viver sem uma apaixonada e absoluta
identificação com um ponto de vista”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

DIÁLOGOS PARA ESCAPAR por FÁBIO CASTILHOS


A Decisão: Grupo Trilho. Foto: Ana Mendes

De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”.  B.B

O Blog Válvula de Escape, segue com a série de entrevistas com diversos profissionais das Artes Cênicas do estado e do Brasil, dentro do projeto "DIÁLOGOS PARA ESCAPAR". Projeto que pretende utilizar este espaço para deixar escapar a voz dos arquitetos da cena atual. E nesta edição, postamos a entrevista de Fábio Castilhos, realizada via e-mail por Diego Ferreira. Fábio Castilhos é ator/diretor/dramaturgo e integrante do Grupo Trilho de Teatro Popular de Porto Alegre juntamente com outros artistas. Graduado em Teatro pela Uergs e pelo TEPA, foi contemplado com o Troféu Tibicuera de Teatro 2011 em duas categorias: Dramaturgia e Direção. Dentre seus últimos trabalhos estão "O Baú - Brincanças e Lembranças", "A Decisão" de B. Brecht e "Ela - A Vespa Libertada".  

1.      Quando e como iniciou a sua trajetória teatral?

Meu primeiro contato foi na escola em 1997. Na sétima e oitava série do Ensino Fundamental a disciplina de artes visuais era substituída pela de teatro. Eu curtia muito aquelas aulas, com a professora Sônia Pellegrino, que infelizmente faleceu. Depois, em 2002, tendo encerrado o Ensino Médio, não passei no vestibular (para Ciências Sociais) e fiquei meio perdido. Quase sem querer me inscrevi num curso de teatro para iniciantes com o Zé Adão Barbosa. Daí em diante não parei mais.

2.      Como se deu a sua formação?

Depois desse primeiro curso com o Zé Adão, entrei no curso de Formação de Atores do Tepa (Teatro Escola de Porto Alegre) no ano de 2003. Neste curso tive aulas com o próprio Zé Adão, o Luiz Paulo Vasconcellos e a Jezebel De Carli. Através da Jezebel conheci a UERGS, prestei o vestibular e passei. Isso em 2004. Formei-me no curso de Graduação em Teatro: Licenciatura (o curso inicialmente se chamava Pedagogia da Arte) em 2007.

3.      Atuar ou dirigir?

Os dois! As duas coisas me dão prazer, me divertem. Talvez, daqui alguns anos eu dirija mais do que atue, sempre acho que isso possa acontecer, mas por enquanto isso não me preocupa.

4.      Qual o papel da universidade na formação de um artista?

Na minha formação foi essencial. Lá eu tive oportunidade de conhecer diversas práticas e teorias. Existe uma metodologia, um caminho. Aí, tu podes escolher qual vai seguir. Porém não é o único caminho. Acho que fora da academia a busca por teoria é mais difícil, a universidade facilita esse acesso. Acho que é isso, a universidade funciona como uma facilitadora, ela te oferece caminhos, possibilidades, mas não basta, tu tens que ir além, ela não te transforma num artista.

Cleo e Clea.  Direção Heitor Schmidt. 
5.      Grupo de Teatro ou Teatro de Grupo? Fale sobre o Grupo Trilho?

Eu acredito muito no Teatro de Grupo. Na verdade, pouco importa a nomenclatura, o que importa mesmo é como se dá o processo de trabalho, como funciona e são estabelecidas as relações. Eu não consigo pensar o teatro em uma função só. Se estiver atuando quero interferir na luz, no figurino, na dramaturgia, enfim a criação deve ser coletiva. Mesmo que haja funções (diretor, cenógrafo, etc.) elas devem dialogar, sem hierarquia, é o que costumam chamar de criação colaborativa.
            Outra questão que acho importante em um coletivo é que as pessoas acabam criando objetivos muito próximos, laços artísticos. Numa companhia, onde as pessoas são contratadas, os objetivos são muito diferentes, o diretor quer fazer a sua peça, o ator quer “brilhar”, tem muito mais “ego” envolvido. No grupo essa questão do ego fica mais diluída, pois o objetivo é do coletivo e não somente do indivíduo.
            O Trilho é um grupo que migra entre criações coletivas e colaborativas, dependendo do objetivo que temos. Cada integrante tem algumas funções que desempenha, mas nada é absolutamente fechado, do tipo fulano só faz isso, sicrano só faz aquilo. Vamos criando e nos organizando da forma que melhor possamos cumprir os objetivos que traçamos.

6.      Em 2011 o Grupo Trilho experimentou pela primeira vez direcionar o seu trabalho ao público infantil. Como foi esta experiência, qual foi à premissa?

Partimos de uma necessidade. De uma não, de várias. A primeira era que quando fazíamos espetáculos no nosso espaço, o Grêmio Esportivo e Cultural Ferrinho, quem ia assistir eram as crianças, elas que insistiam e os pais acabavam acompanhando. Só que as peças eram adultas e até pesadas para elas. Daí pensamos: precisamos fazer algo para essas crianças. Outra necessidade foi que todos nós do grupo também somos educadores e trabalhamos com crianças, enfim vários outros pormenores nos levaram a pensar num trabalho para o público infantil.
E a experiência começou justamente aí. Sabíamos que eu iria dirigir e trabalhar na construção da dramaturgia e que a Caroline Falero e a Giovanna Zottis iriam atuar, e só. Não tínhamos ideia de texto, nem de um tema. Começamos improvisando muitas coisas e aos poucos a peça foi aparecendo. O processo todo durou oito meses. Foi uma experiência incrível, as atrizes se divertiram muito durante o processo, a ideia era essa. Mas eu não. Quer dizer, é claro que eu me diverti, mas teve momentos muito difíceis que eu não tinha a menor ideia de onde aquilo ia parar. Mas foi muito gratificante, por que foi um processo de criação muito livre, que eu tinha muita vontade de experimentar.

7.      O que o teatro político, Brecht e a periferia do Humaitá contribuíram para a construção da dramaturgia de “O Baú”?

Contribuíram por que esses elementos estão na nossa gênese, na nossa pele, na nossa alma. Eles são geradores da nossa estética, da nossa ética. Não conseguiríamos fazer uma peça para as crianças que fosse apenas “bonitinha” e “engraçadinha”. De alguma forma nós temos de cutucar o espectador, seja ele adulto ou criança. E eu creio que conseguimos fazer isso. Tanto crianças como adultos saem de “O Baú – Lembranças & Brincanças” com dúvidas, com anseios. O espectador se diverte, mas pensa também. E isso é um grande barato. 


8.      A trajetória do Trilho e a tua são marcadas pela presença do teatro político sendo influenciado pelo teatro e teorias de Brecht. Quando descobriu Brecht e qual a real importância dele no seu trabalho e na sua identidade?

Descobri de fato o Brecht durante o segundo semestre na Uergs. Eu fui morar em Montenegro e vivia para o curso. Virei rato de biblioteca. Li todas as suas peças. Li inicialmente como um curioso, mas desde o inicio eu me interessei muito pela sua obra. Ele tocava em assuntos que me interessavam, e que até então eu não tinha visto muito no teatro. Aos poucos fui me aprofundando mais sobre o seu trabalho, suas teorias. Não sou um especialista em Brecht, tenho muito ainda que conhecer sobre o seu trabalho, mas ele realmente me instiga e me interessa.

9.      O grupo Trilho carrega em seu nome “Teatro Popular”, ou seja, Grupo Trilho de Teatro Popular. Como você enxerga e pratica este “teatro popular” dentro do grupo e como define este termo em seu trabalho. Quais questões políticas, estéticas ou sociais permanecem na cena atual?

Bom, teatro popular é um termo bem complexo e até perigoso, pois ele pode significar muitas coisas. Dentro do Trilho, é até bem claro o porquê dele no nome. É “popular” primeiro por que trabalhamos na periferia de Porto Alegre. Em segundo lugar por que pensamos em ações que tenham um cunho sócio-político, que a arte tem como função colocar em dúvida esse sistema desigual em que vivemos, criticá-lo nos mais diversos âmbitos da sociedade. Acho que tem uma frase do Brecht que resume muito bem essa questão: “A arte deve optar, pode se transformar no instrumento de alguns que diante da maioria assumem um papel de deuses e do destino ou pode aliar-se a grande maioria transformando-se em arma a serviço do povo”. A nossa estética, poética e ética está totalmente interligada com esse pensamento.
           
Ela - A Vespa Libertada, Grupo Trilho  
10.  Como se dá o processo de trabalho do Grupo Trilho? Quais são suas principais influências?

Como eu disse anteriormente o processo de trabalho do grupo é meio mutante, se modifica na medida em que achamos necessário, mas sempre democrático, sem estabelecer hierarquias, baseado no coletivo. É claro que algumas coisas vão se estabelecendo naturalmente. Um exemplo é justamente as influências do Trilho. A sua principal influência é o Bertolt Brecht, mas cada integrante carrega consigo as suas influências, que acabam afetando os outros integrantes, numa reação em cadeia. E nessa amálgama toda vou citar alguns nomes que me influenciam e que de alguma forma influenciam o Trilho também: Grotowski, Peter Brook, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho, Oi Nóis Aqui Traveiz, Cia. do Latão.

11.  Quais profissionais gaúchos e nacionais tu destacaria, que contribuem para um teatro mais forte e engajado? (Ator/atriz, diretores, teóricos, etc...)

Bom, pensando em engajamento, que, aliás, é uma palavra que eu não gosto, prefiro crítico, na cena gaúcha não poderia deixar de citar o “Oi Nóis Aqui Traveiz”. Outros grupos muito bacanas são a “Cia. do Latão”, “Brava Companhia”, “Teatro Máquina”. O Sérgio de Carvalho, que é diretor da Cia. do Latão, pode ser citado como um grande teórico também. Assim como a Iná Camargo Costa, a Stella Fisher (que é atriz também), a Ingrid Koudela.

12.  Falando em política... Como você vê as políticas públicas voltadas para o incentivo da cultura em âmbito municipal, estadual e federal? 

É ruim, já foi pior, ainda tem muito que melhorar. Falta investimento, falta um critério de avaliação melhor formulado, falta diversificar as áreas de atuação, os repasses não podem atrasar, a “burrocracia” deve ser diminuída, os incentivos fiscais devem ser repensados, enfim, num país onde pessoas morrem de fome, morrem em filas de hospitais, que a educação pública é sucateada e que políticos roubam a vontade e ficam impunes, já era de se esperar que a cultura ficasse relegada ao décimo plano.  

13.  Como você enxerga a atual cena gaúcha? Quais grupos e cias têm desenvolvidos projetos bacanas e o que falta para o teatro gaúcho?

Bastante diversificada e em expansão. Grupos do interior ganhando força como o Teatro do Clã de Montenegro e o Ueba Produtos Notáveis de Caxias, só para citar dois. Já em Porto Alegre temos alguns grupos que vem desenvolvendo um trabalho continuado que merecem atenção, alguns antigos, outros mais novos, como o Oi Nóis, a Santa Estação, o Teatro Sarcaústico, a Cia Rústica, o Grupo Mototóti, entre outros.
O que falta é os trabalhos serem mais bem aprofundados. Até por uma questão de mercado, monta-se muito rápido um trabalho, a peça cumpre uma, duas temporadas no máximo, circula durante um ano (quando muito) e deu, acabou. Vem outro prêmio para montagem e o ciclo recomeça. Não há trabalho que consiga ter um aprofundamento maior. É um problema dos financiamentos, que geralmente são para montagem e pouco para circulação ou fomento de um grupo.

O Baú - Lembranças e Brincanças. Direção Fábio Castilhos. Grupo Trilho Foto: Bárbara Ferraz
14.  Ano passado o espetáculo “O Baú – Brincanças e Lembranças” teve grande aceitação do público e critica e indicado ao Prêmio Tibicuera e você foi premiado como Diretor e Dramaturgo. Como você recebeu estes prêmios e se prêmios como este ajudam em alguma coisa?

Eu fiquei muito feliz e surpreendido com os prêmios. O prêmio de dramaturgia até tinha uma esperança, mas diretor eu era o azarão. Quando a gente começa um trabalho não pensa em prêmios, se vai agradar, se está adequado para isso. Porém ganhar um prêmio é muito bom, dá um “selo de qualidade” para o trabalho, é um reconhecimento. O grupo ficou um pouco mais conhecido, a peça, e eu também. Sabe que depois dos prêmios muitas pessoas, amigos, conhecidos, já fizeram essa pergunta, e eu sempre respondo brincando: “Antes eu era um Zé-Ninguém... Agora eu sou um Zé-Ninguém premiado!”

15.  Quais os teus próximos projetos junto ao Trilho? Nova temporada e novos espetáculos?

O principal objetivo por enquanto é fazer o Baú circular. Temos uma nova temporada no Teatro Bruno Kiefer, na Casa de Cultura Mario Quintana (26/05 a 24/06, sábados e domingos, 16h) e algumas apresentações agendadas. Estamos tentando manter uma tradição que é no aniversário do Ferrinho fazermos uma programação de apresentações lá no espaço, que batizamos de “Estação Ferrinho”. Em 2010 foi muito bacana, foram 5 dias de apresentações, seminário, coquetel, show de música. 2011 estávamos em plena temporada e não conseguimos fazer um evento tão grande, mas não deixamos passar em branco. Este ano queremos retomar pelo menos os mesmos 5 dias de 2010.
E também estamos treinando algumas vezes, lendo coisas, com calma, talvez daí surja algo novo. Por enquanto novo espetáculo mesmo só no plano das idéias, não temos ainda uma previsão para um novo trabalho. 

16.  O que te faz ESCAPAR tratando-se de teatro?

Assistir a uma boa peça, estar num processo de criação e participar de uma boa oficina de teatro. Aí eu escapo, pra bem longe!

As Criadas. Direção Bruna Immich.
Foto: Kiran
 
17.  Alguma vez já pensou em desistir?

Já, muitas vezes. Mas daí me dou conta que não sei fazer outra coisa, então desisto de desistir.

18.  Futuro?

Estar com o Trilho, bem constituído, com o nosso espaço, o Ferrinho, a pleno vapor, dirigindo, atuando, escrevendo, ensinando, aprendendo. Tenho vontade também de experimentar outras linguagens, como cinema e dança e tudo mais que esse tal futuro possa me reservar.

19.  Gostaria de deixar algo especial para encerrar esta entrevista?

Gostaria de agradecer muito o teu convite, foi uma experiência muito legal. Quem quiser conhecer mais sobre o Trilho, acessa www.grupotrilho.com.br
E pra finalizar uma frase do mestre Bertolt: “De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”. 

terça-feira, 28 de junho de 2011

ENTREVISTA FERNANDA PETIT


1 - Como foi o processo/trajetória até tu te tornares uma atriz?
O teatro entrou no peito e na vida desde pequena. Tive a sorte de ter pais e irmãos que me levavam para ver inúmeras peças na metade dos anos 80, meus olhos ficavam maravilhados e eu me empolgava com cada peça infantil que podia assistir,cada domingo era uma delícia.Ali conheci uma atriz e aos 7 anos iniciei minha primeira Oficina com Sirlei(eu não lembro sobrenome dela).Estreando no teatro Museu do Trabalho aos  7 anos .Fiquei ali experimentando coisas e me divertindo até os 9 anos e depois dando prioridade à escola e ao ballet . Voltei a fazer teatro aos 17 anos no colégio, quando um “anjo” Lya Luft me viu no palco durante uma feira do livro e disse:”Menina vá brilhar,pois você tem uma estrela dentro de você” ai resolvi ir atrás do teatro e não larguei mais a tal estrela que eu teimo em achar o brilho.   
2 - Como foi a tua formação teatral?
Quando era mais nova eu era extremamente cara de pau. Fui na “sede” do UTA pedir trabalho e de como queria fazer teatro (óbvio que não fui aceita rsrsr). Comecei a ser rata de oficina e fazia o que tinha pela frente. Iniciei o teatro com Renato Campão, fiz oficinas com Tati Cardoso, Zé da Terreira, Luis Henrique Palese (o responsável pela minha eterna paixão pelo Stravaganza), Patrícia Unyl e Biño Sauitzvy  (descentralização da cultura ,um dos projetos mais lindos que fiz parte e duas pessoas aos quais guardo os melhores conselhos),cursos no Lume(onde descobri meus mestres,pais,teatro que acredito e conheci a cidade mais calma do mundo rsrsrs),cursos no teatro Nilton Filho(onde fui acolhida e cheguei a trabalhar no teatro como “faxineira”,secretária e assim vai,lá descobri o verdadeiro respeito por um teatro e seu espaço)...Minha formação mais forte foi os 2 anos e meio e intensos na Terreira da Tribo.Fiz escola de formação e escola de teatro de rua.Lá tive meus maiores desafios,embaralhamentos,choros,entregas ,buscas e se eu sou algo no palco eu agradeço a eles:Tânia,Paulo,Clélio e todos colegas.    
3 - Dois trabalhos teus me marcaram: “Lorcabodas” e “Solos Trágicos” pela força e vitalidade que tua presença emanava em cena.  Como é o teu processo de trabalho?
Primeiramente fico feliz por ter visto Lorcabodas. Com certeza um dos trabalhos mais fortes que eu tive. Eu chego a sonhar com o processo da peça e os cheiros, gritos, a cor vermelha e o flamenco me perseguem em sonhos (um trabalho que eu gostaria de ter continuado). Meu processo?Fico me achando uma atriz diferente em cada caminho. Me mudo,me reviro,me renovo.Me acostumei com processos sofridos,de entregas loucas,de pirar no corpo,de tentar me acostumar com a palavra.Eu gosto de músicas durante processos,de trabalho corporal intenso,de conhecer novos colegas e renovar raízes com os quais já trabalhei. Eu só penso em ser verdadeira tanto no processo, como depois no palco. Uma vez um amigo meu me disse: Petit é assim (começa o processo da peça-“eba que legal”,durante processo –“ai acho que to péssima ,por que me escolheram?”, mais adiante no processo “ hum tô me encontrando”, durante o processo ,após um xingão ou conselho –“ta agora foi!” e fim do processo “estamos juntos “ e durante temporada “eu não quero que isso acabe ou eu poderia fazer isso a vida toda”.Eu sou inconstante,sensível,crio,tento ser uma boa colega,tento ser humilde e escuto,tenho um ego enorme para críticas ,mas as ouço e deixo tentar chegar ao coração,tenho enormes crises,enormes vontades de dançar ,de ser diferente em algum aspecto,me apaixono pelo que faço,deixo o  personagem me modificar de alguma maneira na vida pra melhor...meu processo é eu e a busca.Meu processo sou eu dançando numa rua vazia de camisola na chuva.
    
4 - O que tu tens assistido e que tem te provocado e o que tu tens abominado nas artes cênicas?
Gostaria de assistir mais teatro, mas sempre estou em cartaz ou ensaiando e passo a perna nos colegas prometendo que vou assisti-los. Gosto de sair do teatro inquieta,com vontade de entrar no palco onde aquele ator estava e dizer(“eu também quero fazer parte desta peça).Quero sair pensante,envolvida,rindo,chorando,tocada...   Dos últimos trabalhos que assisti , curto e indico são (Dentro e fora,Rebú,Não sobre o amor,Andy e Edie,Parasitas,Navalha na Carne,Wonderland e o que M.Jackson viu por lá,Hotel Fuck,O Amargo santo da purificação,Comédia dos erros).Durante o Porto Alegre em cena chego no êxtase ,pois acho muito legal vários tipos de linguagens,a cidade indo ao teatro e debatendo,peças de diretores importantes.Gosto muito do trabalho do grupo ESPANCA (MG),Nando Messias em Sissy,enlouquecida pela Sutil Cia e Felipe Hirsch, grupo Armazém, grupo Galpão, Cia dos atores,Pina Bausch(minha sempre inspiração),Constanza Macras e seu maravilhoso Big in  Bombay,o Lume e seu poético Shi zen 7 cuias e Café com queijo, a efemeridade de  Ariane Mnouchkine  em  Les Éphémères ,Endstation Amerika do maravilhoso  Frank Castorf  ...
Quem sou eu para dizer abomino no teatro. Acho muito chato ver a “classe”  ou  atores jovens  indo nas minhas peças ou de outros colegas com a cara amarrada, se protegendo,fechados e minados já de críticas.
Eu vou para tentar achar algo positivo, de coração aberto, penso no esforço daquelas pessoas. Então eu não gosto de teatro que não tem verdade, que atores despejam algo sem verdade nenhuma, que me enganam, que usam coisas do populacho para serem engraçados ou para aproximar com o público, atores sem vontade no palco com o tal de “não élan”, atrizes e atores preocupados em serem mitos e lindos em cena, descaso..isso sim eu abomino.
5 - Teu trabalho é reconhecido, através do público, criticas e prêmios. Duas questões: Como você vê o papel da crítica e como você recebe as premiações, se puder divida conosco os prêmios já recebidos por ti, e como estes prêmios redimensionam a tua carreira? Sabe que estou tendo meus primeiros contatos com a critica. Há poucos críticos em Porto Alegre e os poucos que viram meus trabalhos falaram bem. Mas eu me apego aos trabalhos, defendo e nem sempre é legal ler que não curtiram sua peça. A peça não sou eu, são todos juntos.
Sobre prêmios tive a sorte de ganhar 3 prêmios durante meus 10 anos de teatro.Minha primeira indicação foi como atriz infantil na peça O MACACO E A VELHA (direção de Deborah Finnochiaro). Depois ganho em 2007 meu primeiro Tibicuera pela peça A GATA BORRALHEIRA (direção: Tiago Mello) e no ano de 2010(o ano que considero de maior entrega e dificuldade financeira) recebo prêmio Brasken de melhor atriz por Solos Trágicos (direção Roberto oliveira) e Prêmio Tibicuera de melhor atriz por Ópera Monstra(direção Adriane Mottola).
Prêmios são bons para reconhecimento do seu trabalho. Prêmio é bom por que te traz alguma segurança financeira... por um certo tempo.Prêmio é bom quando a “classe”,o público torce juntamente por você.
Prêmio é ruim por que te traz aquela “obrigação” de ser boa em tudo, de surpreender sempre, fama de diva (acho isso esquisito e não é meu objetivo). Prêmios são passageiros e bem vindos. Fico feliz que todos meus prêmios (os quais guardo com carinho) foram de trabalhos em momentos super difíceis de grana, estabilidade emocional e trabalhando com gente que sempre quis trabalhar. Sou agradecida. Mais agradecida por ser uma atriz jovem que pode inspirar outros atores jovens. Que desperte a garra ,entende?      
6 - O que te faz ESCAPAR tratando-se de teatro?
Fujo do fracasso. Meu medo é fracassar como atriz, mas a gente erra.Tem escolhas,de repente não tem escolhas.
Eu estou num momento que fujo de mentira. Falsas promessas de trabalho, elogios invejosos, fofocas de mau gosto, de trabalhos com nenhum retorno pessoal e financeiro, pessoas que não sabem separar o lado pessoal do profissional. De certa maneira escapo de estar em grupos. Sou uma atriz em busca do novo, de estar bebendo de várias fontes. Não gosto de me prender em grupos, mesmo tendo vontade de estar em algum da cidade (mas isso é segredo rsrs).Fujo do que pode me atrapalhar e como isso dá medo. 
7 - O que é mais difícil para uma atriz de teatro?
Deixar o teatro. Se sustentar do teatro. Aproveitar aquele momento: o palco (sem julgamentos, sem cobranças,brincar).
8 - Como foi à experiência de trabalhar com outras linguagens como a TV, por exemplo?
Eu nunca quis fazer TV. Não me acho bonita na TV e nem fora ( e beleza conta um pouco na TV,não vamos mentir).Foram experiências ótimas,conduzidas por pessoas que me deixaram livre,improvisando e sem me inibir na câmera.
Aprendi na TV como sucesso é efêmero. Tem uma foto tua Na capa da Zero hora e 1 mês depois tu volta a ser normal.É TUDO É ÊFEMERO.Aproveito o que vem.
9 - Como você enxerga a cena gaúcha atual? O que está faltando para que o teatro gaúcho tenha uma estabilidade, qualidade e notoriedade?
Vou ser bem sincera: eu não sei. Eu estou em crise, ou de mal com a cena gaúcha. Vivo um momento lindo de dois trabalhos, mas me sinto triste como muitos atores jovens. Em busca de grana, trabalho, reconhecimento, aceitação. De mal com o pouco público, a falta de espaço na mídia, as fofocas, os editais. Então está eu sozinha pensando: o que eu quero Ser PARA A CENA GAÚCHA?QUE ATRIZ QUERO SER?O QUE QUERO DEIXAR AQUI?  
10 - Você é uma atriz que transita muito entre diferentes grupos e trabalha com diferentes diretores. Fale um pouco sobre esta relação e o que tu “rouba” de cada experiência? 
Gosto de escutar. Ficar quieta, tomar meu espaço no grupo, troco com certo acanhamento. Roubo as palavras em mesas de bar, em jantas do grupo. Roubo as vontades, o espírito de união e tento me encher do mesmo amor que o grupo tem pela peça. Quando vê sou a peça junto com os atores. Cada experiência é única. Eu não saberia te dizer em palavras, talvez pudesse por em músicas e dançaria. Cada um teria uma dança e música. Seria minha homenagem a cada um que me ensinou e me fez passar pelo palco com cada presente ou desafio. 
11 - Quais profissionais gaúchos e nacionais tu destacaria? (Ator/atriz, diretores, teóricos, etc...) 
Gosto muito do trabalho de Daniel Colin, João Madureira, Jezebel de Carli, João de Ricardo (diretores que nos deixam inquietos), o trabalho das atrizes Sandra Dani, Tânia Farias, Liane Venturela)(inspirações femininas)   e a dramaturgia de Diones Camargo .Gosto de gente do teatro como Roberto Oliveira e Adriane Mottola (sábios em palavras e conhecimento)

12 - Atualmente tu estavas em cena com dois espetáculos: “Ifigênia em Áulis + Agamenon” e “A Caofusão”. Quais são teus próximos projetos?
Não tenho projetos. Não planejo e fico aberta a novos projetos. Aquela frase: o que é meu ta guardado. Quem se habilita?
13 - Gostaria de compartilhar mais alguma idéia neste espaço?   A frase: “Que seja doce” e a palavra EFEMERIDADE.





Fernanda Petit é atriz com formação na Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo e na Escola de Teatro de Rua da Terreira da Tribo, no Grupo Experimental de Teatro de Porto Alegre, além de diversos cursos com profissionais como: Renato Ferracini, Carlos Simioni, Luiz Henrique Palese, Nilton Filho entre outros. Vencedora dos Prêmios Brasnken 2010, e dois Tibicueras - 2010 e 2007.  


Em nome do Blog “Válvula de Escape” agradeço a tua participação e te desejo sucesso em toda a sua trajetória. Um grande abraço!
Diego Ferreira – Grupo Válvula de Escape.






domingo, 8 de maio de 2011

ENTRE A PALAVRA E O GESTO, UM ASSOVIO QUE SE FAZ PRESENÇA

Grupo Válvula de Escape

Compartilhamos a entrevista que concedemos ao Blog Indecentes Palavras da escritora e Psicanalista Adriana Bandeira. Segue abaixo a entrevista na integra. 

ENTRE A PALAVRA E O GESTO, UM ASSOVIO QUE SE FAZ PRESENÇA- Contando histórias com o grupo Válvula de Escape

1-Quero lembrar da proposta inicial, quando o grupo estava se formando...Lembro que a idéia era de formar um grupo para o texto de Clarice.Sou apaixonada pelo texto de Lispector.Tanto, que por vezes retorno aos que já li e ele sempre me é muito estranho, diferente.É o tipo de escrita que se está para o leitor, ou seja, nós é que somos outros e reconhecemos isso na leitura.Pois bem...para mim, Clarice nos traz essa possibilidade.Quando a proposta de um grupo parte de um texto, ali nomeado está o dito deste grupo.Quando o texto é de Lispector...o dito prevê o SER, ou seja, esta mudança inerente ao EU.Então: porque Clarice?
Diego Ferreira – A principio, gostaria de agradecer em nome do Grupo Válvula de Escape por esta oportunidade, obrigado! E gostaria de dizer que adorei o título: “Entre a palavra e o gesto”, bastante significativo para nós. E em seguida gostaria de esclarecer que a proposta inicial não era de formar um grupo específico para a montagem do texto de Clarice, mas sim a criação de um grupo teatral voltado a questões sobre a criação, fomento e compartilhamento das artes cênicas contemporâneas. E em apenas num ano acreditamos que conseguimos, mesmo que de maneira tímida cumprir com esta tríade acima elencada: Criação (Criação e manutenção do espetáculo “Assovio...”), fomento (fomentar e discutir a arte na cidade e tem sido uma constante do grupo na criação de vários projetos criados para fomentar e difundir o teatro) e compartilhamento ( através das oficinas desenvolvidas ao longo do ano passado e que terá prosseguimento neste ano). Até mesmo por que antes do Válvula houve a tentativa de criação de outros grupos que não deram certo devido as agendas corridas dos integrantes e muito em função das atividades destes integrantes junto a UERGS. Pois bem, quando me formei no final de 2009, a atriz Lucimaura Rodrigues também graduada na Uergs me confidenciou sua vontade de retornar aos palcos e eis que ali marcamos um encontro para definir o que faríamos dali para frente. Então em janeiro de 2010 nos reunimos e logo em seguida convidamos a Ana Denise e Martina para se unirem a nós. Ali nasceu o Válvula de Escape.
E quanto a Clarice, bom, como foi uma proposta que foi sugerida por mim, era um desejo, uma vontade de transformar esse livro tão instigante da Clarice em teatro, em ação, em cena. No início fui tomado por uma euforia e entusiasmo para levar a cena a história de Macabéa, mas depois, no meio do processo um desespero tomou conta de mim, pois percebi que a história era complexa demais para ser transformada em cena, mas era tarde demais e decidi não desistir e enfrentar a Clarice de frente, foi quando optamos em realizar o espetáculo no porão da estação, foi ali que o espetáculo ganhou força e base para ser levado a cena, mas não foi fácil dialogar com este texto que não é especifico para teatro, é um romance, aí já temos um obstáculo, mas olhando agora, após as apresentações percebo que conseguimos um resultado satisfatório e digno frente a grandiosidade e complexidade da obra de Lispector.
2-Percebo que o grupo foi se renovando, agregando novas pessoas, desde o primeiro encontro, em que eu mesma participei. Aliás...é bom as pessoas saberem que o artista faz exercícios físicos que...Não pude caminhar no dia seguinte!( eheheheh). Pois bem, conte-nos um pouquinho da trajetória, das escolhas, da confirmação deste grupo que hoje apresenta ‘“Assovio no Vento Escuro”.
Diego Ferreira – Bom, depois do encontro inicial, nos reunimos poucas vezes e precisávamos de mais pessoas para a formação do grupo. Então tive a idéia de oferecer um Workshop de três dias de duração que aconteceu no Teatro Robertão (e que você participou), para selecionar mais cinco atores para se agregar a nós, destes 5 selecionados dois ainda estão atuando conosco que são o Léo e a Tuane, mais a Adri que não atua no grupo atualmente, mas auxilia na produção e penso que retorna este ano como atriz.  Sim, o ator faz muitos exercícios físicos, o que chamamos de treinamento físico, pois a forma que um ator tem para comunicar-se com o público á através de seu corpo, da sua poética. O corpo é o nosso instrumento de trabalho, portanto temos que treinar ele todos os dias e o treinamento ocupam grande parte dos nossos ensaios. São exercícios puxados, cansativos, exaustivos, mas que são necessários para que o ator possa encontrar e trabalhar a sua presença cênica e a sua poética de trabalho. O trabalho de um ator não se resume em decorar um texto e entrar em cena, por trás desse trabalho, existe muita dedicação, estudo e criatividade. Quanto à renovação, penso que como somos um grupo novo, com uma curta trajetória, neste primeiro momento a idéia é a de tentar manter os integrantes que iniciaram e que puderam se manter, para que através das conquistas que obtivemos no ano passado possam ser intensificadas neste ano. Trabalhar em grupo exige que este coletivo se conheça, criem confiança entre si e na direção e nossa aposta é a de um trabalho contínuo focado no trabalho do ator. A renovação se dará através das oficinas oferecidas, que neste ano terá a duração de 8 meses com a montagem de um espetáculo no final, e os alunos que se destacarem poderão fazer parte do Válvula no ano que vem.
Adriana Cruz – À medida que as pessoas vão se conhecendo o grupo foi formando uma identidade, é o resultado das atividades realizadas pelo grupo, cada um contribuindo co suas experiências e se adaptando um com os outros e assim o grupo está criando a sua poética.
3-Chegamos ao título do espetáculo de vocês... Lispector e Assovio tem muitas coisas em comum.Tratando-se do texto que leva em conta estes EUS, os que surgem num discurso, na palavra, agrego isso a nossa de significante.Coisa minha.pois bem, o significante é um traço mínimo que faz diferença, que perpetua escolhas, mesmo que não saibamos.O assovio é um traço  mínimo, é um “ soar”, escorregar a voz, reconhecendo o pedido ou aviso de algo.Mas, este zumbido embora fundamental é somente fundamental.O resto é que faz canção.Pois bem: porque Assovio no vento Escuro?
Diego Ferreira – Tudo é significante. Tudo é signo. E os signos são transformados em significantes por aqueles que recebem este signo, no nosso caso, os espectadores. Essa tua leitura da palavra “Assovio” tem tudo a ver, mas não é a mesma que a minha e talvez não seja a mesma da Clarice, da Adri Cruz, enfim. Quero dizer que cada individuo “interpreta” conforme os seus referenciais, e assim acontece com a gente que faz teatro, nós como atores, “representamos” algo e o espectador “interpreta” a seu modo este algo que compartilhamos com ele. Por isso gosto de usar o termo “representação”, pois nós representamos e fica para o público fazer a “interpretação”. Sobre o título, como a nossa proposta não era a de levar a cena o livro “A hora da estrela” de modo literal, tal qual o livro, mas sim, adaptar e criar um novo olhar a partir deste mesmo texto, pensamos que não poderíamos utilizar o mesmo título do livro, senão estaríamos vendendo uma idéia que não era compatível aquela realidade da obra. Posso dizer que fomos fiéis a obra e ao mesmo tempo livres, pois nos permitimos a criar também e não somente reproduzir. Então procuramos outros títulos que viesse ao encontro da nossa proposta. Realizamos até uma votação interna e o título que venceu não foi este, decidi recorrer a Clarice, pois este livro tem 21 títulos juntamente com “A hora da estrela” e “Assovio no vento escuro” é um deles, acho que combinava mais com nosso propósito e com o nosso espaço. Mais poético e menos literal, nos permitiu a sermos livres frente a obra, entende.
Adriana Cruz – “Assovio no vento escuro”: o nome tem tudo a ver com a atmosfera que envolve a personagem, tem a ver com a poesia de Clarice, a poesia do Válvula.
4-Gostaria de saber um pouquinho da trajetória de cada um de vocês e o que causa esta escolha pelo teatro. Sendo possível que colocassem seus nomes, apresentassem suas perspectivas.
Adriana Cruz – Eu conheci o teatro já adulta quando estava fazendo o magistério no Colégio São José, passou-se muitos anos e aquilo sempre ficou, aquele gostinho de quero mais. Quando finalmente tive um tempinho para mim, onde eu pudesse fazer o que eu gostasse como todo mundo, assim como tem gente que gosta de ir à academia, resolvi então fazer oficina de teatro na Fundarte, depois disso só foi... Adoro essa coisa de a gente poder ser outras pessoas, hoje eu sou um menino, amanhã posso ser um velho, etc.
Diego Ferreira – Bom, a minha relação com o teatro se estabeleceu de uma maneira inusitada. Comecei no teatro em 1995, ou seja, há 16 anos atrás. Estudava numa escola pública de Porto Alegre e para ter algo a fazer no contra-turno da escola, fui buscar algo diferente para fazer. Ao lado da minha escola, existia uma escola “especial”, dedicada exclusivamente para alunos portadores de necessidades especiais. Até eu adentrar naquele espaço, aqueles seres eram pessoas de outro mundo, o que tinha do outro lado da cerca causava medo, ou até desprezo, mas eis que a escola especial resolveu abrir suas portas para que alunos da escola regular pudessem fazer integração com os alunos especiais, através do oferecimento de diversos cursos como: esporte, música, dança, teatro, fotografia, culinária, etc... Fui lá conhecer os cursos e optei por fazer esporte, mas como vi que meus colegas estavam escolhendo teatro quis saber o que era, chamaram a professora de teatro e esporte e a professora de teatro com sua magia conseguiu me converter ao teatro. Desde então jamais interrompi minhas atividades teatrais. Essa oportunidade marcou e mudou minha vida de diversas formas. Primeiro pelo fato de poder desmitificar aquela idéia que eu tinha daqueles seres que existiam do outro lado do muro, são pessoas competentes, capazes de te cativar e compreender sua vida, vencer barreiras e limites. Aprendi a gostar e respeitar aquelas criaturas amorosas e compreensíveis. Fiquei 4 anos lá fazendo curso de teatro e depois comecei a fazer outros cursos, oficinas e seminários sobre teatro. Conheci muita gente até chegar na Uergs onde conclui a Graduação em Teatro em 2009 na Uergs e atualmente tenho me dedicado ao Grupo Válvula de Escape, nas funções de diretor e professor de teatro, além de realizar a direção do espetáculo “Wilma e Elza” que segue em cartaz pelo interior do RGS.
5-Existe o texto e o outro texto. Digo que este outro texto invariavelmente é a poesia. Quero dizer que a construção de um personagem não deixa de ser fazer poesia. Afinal estão: o escrito, o ainda não escrito e o SER. No caso deste Assovio, existe Lispector, a adaptação (muito bem feita) do texto, o que está para ser construído e o SER. O que pensam sobre esta construção?
Diego Ferreira – Sim concordo muito que a construção de um personagem é a construção de uma poesia. No campo de pesquisa em artes, falamos em criação de Poéticas, que representa o modo e a maneira que cada artista, cada pesquisa constrói o seu trabalho. Em nosso trabalho o texto da Clarice foi o grande norte, mas não o único. No teatro trabalhamos com DRAMATURGIA. E quando me refiro a Dramaturgia, não estou falando somente do texto, do drama, mas sim de dramaturgia(s), pois temos a dramaturgia do texto, do ator, do espaço, da música, da imagem, enfim, diversas dramaturgias que somadas formam um espetáculo. No caso do “Assovio...” o primeiro passo foi pensar na parte textual, pensada para um espaço convencional, um teatro. Era outro tratamento de texto, preocupado com questões da teatralidade, do escancarar a cena para o espectador, de uma Macabéa fantástica, repleta de signos e significantes, do onírico ao real. Quando decidimos o espaço, a configuração do espetáculo e do texto foi alterada e tudo se transformou em função do espaço. Agora teríamos que trabalhar com a possibilidade de o espectador estar junto na cena, ou melhor, imerso nela, sentindo a respiração do ator, então procuramos trabalhar com a verdade, jogar com a sinceridade, ao invés de trabalhar na caracterização dos personagens, potencializar o mínimo, para chegar ao máximo, desvelar as possibilidades que aquele espaço nos dava. Esse foi o nosso grande desafio, teatralizar um espaço que não é teatral, mas que de acordo com nossa encenação, passaria a ter uma configuração teatral, lógico que somando as dramaturgias já mencionadas aqui neste texto. Mas me referindo à adaptação literal do texto, foi um dos pontos mais difíceis e dolorosos do processo, pois eu não queria deixar nada de fora do roteiro, cortar fora as palavras de Clarice era dolorido, mas eu ia adaptando conforme as improvisações dos atores, o 1º esboço deu em média umas 50 páginas, o 2º em torno de 30 páginas, depois vieram muitos esboços até finalizar num roteiro de 11 páginas que foi ficar pronto uma semana antes da estréia, priorizamos o diálogo entre as personagens e eliminamos 90% da narração, centramos na história de Macabéa, sendo que o livro não conta somente a história dela, mas sim, o dia a dia de um escritor frente à criação (no nosso caso, o escritor foi transformado na figura de Clarice Lispector interpretada pela Lucimaura, que guia os espectadores) e sobre o processo de escrita em si. Adaptar não é somente cortar trechos e rearranjá-los, mas sim tentar encontrar um novo modo de contar aquela mesma história, eliminando e agregando novos elementos a esse novo material.
Adriana Cruz – Acho que a adaptação de um texto é a essência do texto original sob a ótica de um determinado grupo. É a “nossa” verdade.
6-Na estréia (e eu gosto das estréias porque elas mostram a potência do texto, dos personagens e dos artistas) o diferencial marcou a cidade. Não estamos mais num palco fechado, com sujeitos que assistem sentados a alguma trama. Não existiu os que assistiam. Fomos convocados a estar. O tal SER estava tanto nos personagens do texto do Assovio, quanto os que acabavam habitando nossas identificações com as palavras vindas dos artistas. Como vocês sentiram esta vibração?
Diego Ferreira – Eu também gosto das estréias, pela novidade, pela expectativa criada em relação ao espetáculo, tanto dos artistas, quanto da platéia, mas gosto de rever após algum tempo o mesmo espetáculo, para ver como o grupo solucionou questões, amadureceu o espetáculo e venceu alguns obstáculos que na estréia ainda poderiam estar desajustados. Creio que “Assovio...” marcou a cidade sim, por vários motivos, pela utilização de um espaço não convencional para apresentação de um espetáculo teatral, também marca a cidade pelo fato de oferecer uma temporada de teatro, com sucessivas apresentações, sabendo que geralmente os espetáculos aqui apresentados são apresentados apenas uma vez, no máximo três vezes, então queríamos e queremos começar a mudar a cultura da cidade em relação a isso, a formação de platéia, mas para se ter público tem que haver ações que convidem este público a estar participando do evento teatral. E este é um belo exemplo. Quanto à vibração do público na estréia e demais apresentações penso que... Ops! Surpreendemos-nos com a recepção do público, que compareceu e que participou abraçando esta idéia, este projeto. A vibração era verdadeira e os atores sentiam isso e revidavam em cena, em ação, em emoção! Foi emocionante ver o público habitando os porões da estação, dando vida aquele lugar.  
Adriana Cruz – Bem, por motivos pessoais, não pude participar da estréia, pois tive que “abandonar o personagem”, mas só o personagem, o grupo não. Porém quando fizemos o nosso primeiro ensaio aberto eu ainda estava no elenco e fazia a personagem Glória e lembro bem as emoções que tive, era de tudo um pouco, medo, ansiedade, curiosidade e empolgação, tudo misturado. Mas o medo era o mais latente, pois eu me preocupava  com as reações que as pessoas poderiam ter diante das provocações que a peça fazia e que a minha personagem propunha, e a minha personagem era abusada e gostava de chamar a atenção. Lembro bem quando provoquei um espectador através de olhares e beijinhos, e a pessoa ficou tão desconcertada, que desviou o olhar, sendo que nesta hora eu quase perdi a concentração, o ritmo, pois eu não esperava esta resposta, pois a maioria da platéia estava bem à vontade com a relação estabelecida. Essa proximidade pode ser tanto positiva quanto negativa e tive que me concentrar na personagem para não perder a concentração. 
7-Do “ ar livre”, da “ Estação dos trens” para o subterrâneo...nenhuma condição , nenhum trânsito representaria melhor a proposta.Do amplo ao restrito.Nele uma infinidade de perspectivas, ditos, sensações.Como foi esta elaboração, esta escolha ?
Diego Ferreira – Esta escolha deu-se dentro do processo de criação do espetáculo, a princípio pensávamos num espetáculo para o palco italiano, tradicional. Como realizávamos nossos ensaios no porão da estação, chegou um momento em que aquele espaço já havia marcado nossa criação. Foi quando resolvemos assumir esta proposta de encenar uma peça num espaço não-convencional. Até então, a estrutura da peça e do texto era caótica, sem nexos, sem sentidos, apenas estávamos “tentando” criar um espetáculo de teatro convencional, mas era tudo exagerado, personagens estereotipados, propostas absurdas, mas tínhamos o desejo de fazer, de tentar, de aprender com nossos erros. Com a chegada do André, nos assessorando filosoficamente, o projeto deu uma virada de 360º, pois ele nos ajudou a pensar e explorar os personagens sob outro viés, analisando cada um e explorando eles sob outros aspectos.  Mas quando assumimos este espaço enquanto palco conseguimos visualizar possibilidades de leituras, como esta que tu fazes, potencializar signos e evidenciar a teatralidade do espaço, criar ilusão, mas ao mesmo tempo destruir a ilusão e mostrar ao espectador que aquele momento que estamos compartilhando com ele, é teatro, é mentira, mas ao mesmo tempo, é uma mentira com verdade. Desmitificamos a ilusão da caixa cênica e seu aparato de iluminação e som, criando uma cena aberta, com atores, espectadores e técnicos no mesmo plano, ora criando uma ilusão, ora destruindo essa ilusão antes proposta. E chegar ao espetáculo que o público pode conferir foi uma tarefa árdua, de escolhas de caminhos e propostas, decididas no dia a dia dos ensaios, como montar um quebra-cabeça, um painel com várias referencias, vários signos propostos e expostos, mas que sem dúvidas foi o espaço que nos deu, lógico que tivemos uma pesquisa e criação neste espaço, mas aquele espaço foi um personagem muito importante neste processo, tanto que não cogitamos a idéia de realizar a peça em outro espaço.  Inspiramos-nos no teatro desenvolvido pelo grupo Porto-alegrense “Ói nóis aqui traveis”, em sua proposta de teatro de vivência, onde o espectador é convidado a celebrar a cena, participando ativamente do espetáculo. No nosso caso, absorvemos esta idéia do espaço, de o ator e o espectador compartilhar do mesmo espaço, espaço pequeno e apertado, aproximando e colocando o espectador dentro da cena.
8-O texto traz à tona verdades como : a morte, a solidão,a esperança,a condição.O que, para vocês, ficou mais contundente no Assovio?
Diego Ferreira – É... não somente o texto, mas toda a obra de Clarice denuncia este mundo repleto de incertezas, de aparências. Para mim ela dialoga muito com o ser mulher, e com o existir, existência. Somos um na imensidão vasta do mundo. Penso que a obra de Clarice, além das verdades, traz diversas referencias cotidianas que fazem o leitor mergulhar e se identificar com a história proposta. No caso de “A hora da estrela”, a obra desvela referenciais contemporâneos como a Coca-cola, as Lojas Americanas, a rádio-relógio, o Rio de Janeiro, signos que são cruciais para uma identificação com o leitor deste universo que denuncia a pobreza tanto de espírito quanto social de Macabéa fazendo um contraponto com o capitalismo das grandes cidades, do consumo, do acesso a informação, mesmo que esta informação não seja compreendida. Fica a impressão de que somos seres fragmentados, incompletos, sempre em busca de algo que tentamos preencher vazios, lacunas e às vezes não encontramos...
Adriana Cruz – As “verdades” como a morte, a solidão, a esperança, a condição, o que para mim fica mais contundente foi à solidão e ver como uma pessoa pode ser tão solitária, sendo que Clarice foi uma pessoa muito solitária apesar de estar sempre rodeada por muitas pessoas.
9-Existe um segredo que faz com que, num grupo, todos estejam, de fato, no que fazem. Esta unidade prevê as diferenças, se estamos falando de um grupo de verdade verdadeira ( eheheh).Como vocês lidam com estas diferenças?
Diego Ferreira – Tu sabes que discutíamos sobre isso em nosso último o encontro, estávamos lendo um texto sobre o trabalho do ator, de uma entrevista do ator e diretor Cacá Carvalho, e ele fala muito sobre isso, mas ao invés de falar sobre diferenças, ele fala sobre individualidades. Somos um coletivo formado por indivíduos, onde cada um traz junto os seus referenciais, seu histórico, seu corpo e sua identidade. Queremos uma unidade, mas prevendo que está unidade seja construída pautada na liberdade e individualidade, pois não podemos apagar ou ignorar o histórico deste indivíduo, e isto me interessa muito, o que o ator tem de interessante, e que eu posso aproveitar e roubar dele e o que eu tenho de interessante para repassar a eles, essa é a base da troca. Trabalhar as individualidades, as potencialidades de cada um para tentar decodificar e instaurar um processo de grupo, onde todos estão inseridos. Partindo daí penso que conseguimos estabelecer contatos para trabalhar a diferença e fazer com que esta se transforme em potencial criativo de grupo, ou seja, se transforme em uma determinada poética coletiva, que na verdade são micro-poéticas individuais que somadas se transformam em poéticas do Válvula de Escape, entende.
Adriana Cruz – Às vezes, é difícil para mim, porque somos todos muito diferentes, com histórias e históricos diferentes, experiências de vida e de idade. Então temos que ter muita paciência, pois existem os acelerados e os devagar, os que falam de mais (como eu), e os que deveriam se impor muitas vezes não se manifestavam, mas isso foi no inicio, onde procuramos nos respeitar e ir se encaixando uns aos outros.
10-Poderiam nos contar uma coisinha engraçada, uma mania ou “esquisitice” de cada um?( eheheheheh).
Diego Ferreira – Quando falo em individualidades, lógico que temos características em cada um, não vou citar nomes, mas eles vão reconhecer aqui cada um, mas temos aqueles que falam de mais, mas não sabem escutar, aqueles que estão sempre atrasados, os negativos e pessimistas. Mas nesse tempo em que estamos trabalhando juntos muitas coisas aconteceram, por exemplo, nos ensaios e apresentações, pelo fato de trabalharmos no lado externo da estação lidamos com o imprevisível, e quase sempre temos a presença de cães que às vezes atacam aquelas figuras vestidas de preto, uma vez tínhamos aqueles pássaros, “quero-quero” e a Maura ficou assustada com a possibilidade de ser atacada em cena aberta, e também temos as crianças que hoje em dia são nossos parceiros, mas no inicio dos ensaios externos gostavam de interferir na cena, o que não era de todo ruim, pois era uma proposta que possibilitaria isso e os atores teriam que jogar com o imprevisto.
11-Na reunião de janeiro estive com vocês e esqueci a máquina e ...Pois bem, neste encontro percebi uma certa leveza, uma certa tranqüilidade.Isso é fato?
Diego Ferreira – Sim, naquela ocasião não estávamos em trabalho, estávamos apenas reunidos, era uma reunião de produção e encaminhamentos para o ano de 2011, então estávamos livres e descontraídos. Mas durante o trabalho, quando nos reunimos para ensaiar e treinar, muda um pouco, pois temos que criar um espaço de concentração, onde tudo o que possa nos atrapalhar fica do lado de fora, e dentro fica a vontade de produzir e compartilhar com o grupo, não deixando de lado o prazer de estar ali comungando com o outro a possibilidade da criação cênica. Durante os ensaios, dentro desta zona de concentração cria-se também uma tensão, que é bem vinda ao trabalho, mas às vezes essa tensão se transforma em explosão, daí sim temos que parar e conversar e tentar resolver. Mas um dos princípios do grupo é o prazer, o prazer de estar ali, presente e entregue de forma verdadeira.
12-Então: diretor é..?Figurinista? ...Existe uma coordenação do grupo?Como ela é feita?
Diego Ferreira – Somos um coletivo, um grupo. A única distinção que existe é que eu atuo como diretor e os demais como atores ou músicos, mas isso não impede que um dia eu assuma o papel de ator e alguém assuma a direção, já que temos pessoas capacitadas para isso. Enquanto grupo Válvula de Escape é assim, mas é lógico que não trabalhamos sozinhos, e para produzir um espetáculo precisamos de profissionais aptos em suas determinadas áreas, como por exemplo, criação e execução de figurinos, da iluminação, do projeto gráfico, de um bilheteiro, de um produtor, divulgador, etc... Mas enquanto grupo somos assim, mas não quer dizer que também não executamos outras tarefas, por exemplo, por enquanto, nós mesmos somos nossos produtores, elaborando projetos, cuidando das finanças e divulgando nosso trabalho, mas a medida que o trabalho vai se desenvolvendo, percebemos que precisamos mais desses profissionais ao nosso redor, pois isso reflete no todo do trabalho e o que queremos é sempre poder oferecer o melhor ao público.
13-Preciso dizer que fiquei muito agradecida com o convite para assisti-lo.Fiquei também surpresa já no primeiro momento em que a atriz nos convida para o futuro.Certo! Ele a todos recebe.Várias “ sacadas” me fazem crer que o texto de Clarice pegou vocês, porque ele é virulento.Como epidemia, vocês passam adiante e por aí vai ( eheheheh).Pois bem,perguntei  à vocês no dia da estréia e pergunto agora: como vai ser?Ninguém sai impune, depois de estar tão próximo de Lispector.Quais as conseqüências sentidas por vocês em estarem personagens, lidarem com seu texto, enfim...o que isso causou em cada um?
Diego Ferreira – Sim o texto da Clarice é quem nos convida ao futuro, o texto em questão, “A hora da estrela é de 1977 e ainda ecoa como algo tão visionário e infelizmente tão atual, ao tratar da pobreza da personagem, nordestina e pobre de dinheiro e de espírito. Quanto mais avançamos parece que mais mazelas assolam o País e Clarice retrata isso muito bem em sua obra, mas de maneira ousada e poética. O texto, ou melhor, a obra dela nos pegou completamente. Eu já conhecia alguns de seus livros, e ousei em propor logo de cara para um grupo que recém estava se formando criar um espetáculo baseado em sua obra. Ousei e ousaria novamente, pois eu acho que a arte e o teatro, especificamente, é feito assim, de ousadias, de riscos, não podemos antever aonde chegaremos quando propomos algo como este projeto, poderia ser outra coisa entende, mas resultou nisso por causa de diversos fatores. Lógico que não saímos impunes, nem tampouco poderia, pois a escrita de Clarice deixa marcas, e isto é maravilhoso, ver o que um texto pode transformar a vida de uma pessoa, creio que muitos espectadores também saíram diferentes do que entraram no espetáculo, e isso é muito bom, pois assim conseguimos alcançar um dos nossos objetivos, trazendo esta obra a cena, que era o de provocar assim como fomos provocados e incitar que mais pessoas pudessem conhecer as obras dela. As conseqüências, no geral, foi ver a transformação, o percurso, o entendimento dos atores e meu durante o processo, pegar o texto, adaptar, cortar, inserir outros textos, decorar e corporificar literatura em ação, dar carne e alma aqueles personagens que são papel e entender esse processo, sofrer, ter crises, se emocionar e emocionar ao outro. Lembro de ensaios em que saia completamente frustrado e arrependido de ter feito uma escolha tão difícil quanto esta, e temer que aqueles atores não dariam conta deste mundo complexo que é Lispector, mas ao mesmo tempo tinha ensaios em que me emocionava, chorava e deslumbrava o que poderia vir a se tornar todo aquele processo turbulento. Por isso penso que participar de um processo criativo tem que estar disposto a correr riscos e disposto a conhecer novos caminhos, diferentes daqueles que eu já conheço, pois somente assim, poderemos nos revelar através dos personagens. E a nossa relação com Clarice segue adiante, pois os atores continuam lendo a sua obra, adquirindo novos livros e isso é maravilhoso, eu ganhei do meu elenco no final do ano a nova biografia de Clarice escrita pelo Benjamin Moser, e que eu adorei, pois mesmo nos dedicando a outros projetos, o contato com a obra dela continua presente em nossas vidas.
14-Notícias: voltam com o Assovio?Estão criando algum outro texto?
Diego Ferreira – Sim, o “Assovio...” fez uma nova apresentação em março dentro da programação do “Teatro para Escapar”, mostra que organizamos para comemorar o dia internacional do teatro e do nosso 1º aniversário e cumpriu nova temporada na 1ª quinzena de abril, que foi muito bacana para nós, mas agora vamos manter este espetáculo em repertório, sendo que não temos nenhuma apresentação prevista para este ano, mas quem sabe retornaremos a cartaz com ele, enfim. Mas temos outros projetos para este ano, e o 1º deles já está acontecendo, que é uma Oficina de Montagem Teatral, onde terá como resultado uma montagem de um espetáculo que será apresentado em dezembro também na Estação. Em maio faremos uma oficina de dramaturgia e que teremos que apresentar uma leitura dramática sobre um texto da Sarah Kane, provavelmente em Julho ou Agosto, e estamos em processo de montagem do nosso próximo trabalho, “O Pequeno Príncipe” dirigido a todas as idades que estreará em abril de 2012. Este trabalho foi contemplado com o Fumdesc, que é o fundo de apoio a projetos artísticos da cidade, e que ficamos muito felizes de sermos contemplados. Então trabalho não nos falta, agora e se fechar novamente em sala de trabalho e criar.
15- Gostariam de dizer mais alguma coisa?
Diego Ferreira – Agradecer pelo espaço, pela presença e por nos auxiliar a difundir a nossa “válvula” a outras pessoas através do seu blog. Agradecer o seu olhar atento acerca do nosso trabalho e te convidar para estar sempre presente conosco. Gostaria também de divulgar o nosso blog, WWW.escapeteatro.blogspot.com, lá vocês podem encontrar muitas informações sobre o nosso trabalho. 
16 - Para mim foi um acréscimo ter estado com vocês. Muito do “Assovio no vento Escuro” já disse no comentário, que se encontra por aqui e no blog do grupo Válvula de Escape. Mas aqui ,falo do grupo, das pessoas e não somente da produção.Fico grata pela forma como vocês protagonizam uma diferença de postura, de condição para o artista de cada um: participante. Isso não é um texto que faz.São as pessoas!Esta marca que vocês inscrevem tão bem faz rasura sem retorno na nossa rua, na nossa vida, na nossa língua que é somente forma de falar. A cidade agradece numa postura já modificada em que subterrâneos são estações que dizem do tempo de antes de depois.
Diego Ferreira – É, percebemos também que o nosso “Assovio...” foi uma diferença mesmo no cenário cultural da cidade por vários motivos: oferecemos uma temporada contínua do mesmo espetáculo, o que não acontece na cidade; utilizamos um espaço não-convencional para apresentarmos um espetáculo; realmente é uma mudança de postura necessária e muito bem vinda, que venham novas propostas como esta, pois a cidade das artes tem que ter espaços para todas as diferentes linguagens artísticas. E o que você escreve nesta última questão é realmente poético e lindo, parabéns e obrigado. Beijos do Válvula a você também. Um grande abraço e até uma próxima.
Beijo com todas as letras
Adriana Bandeira
Diego Ferreira é ator, professor e diretor do Grupo válvula de Escape. Graduado em Teatro pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. escapeteatro@bol.com.br
Adriana da Cruz é atriz e colaboradora do Grupo Válvula de Escape graduada em Direito.