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sábado, 19 de abril de 2014

OLHARES IMIGRANTES: ENTREVISTA COM EDGAR BENITEZ (SP)

José Renato e Edgar Benitez em Inflexíveis Ligações
Olhares Imigrantes é uma série de entrevistas com profissionais do teatro que imigraram para outras cidades do país ou fora dele para continuar seus trabalhos e estudos. Iniciamos com Edgar Benitez que está residindo em São Paulo desde 2010 e nos conta através desta entrevista como tem guiado seu trabalho. 


1. Edgar, conte-nos como iniciou sua trajetória no teatro e o que te motivou a buscar essa arte? 
Antes, de mais nada obrigado pelo convite de poder tecer alguns comentários sobre minha trajetória. Obrigado de coração!!! Bem, desde muito cedo quis atuar; na escola mesmo muito tímido, fazia espetáculos na disciplina de “religião”, e ficava encantado, assim também permanecia, quando assistia a novelas maravilhosas como “Que Rei sou eu?”, “Carrossel”,  “Tieta”, “Vamp” entre outras. Logo, meu maior sonho era ser ator, mas como não tinha condições de pagar por um curso de teatro/televisão protelei meus sonhos, até que um belo dia uma colega do colégio, me informou que havia uma oficina de teatro gratuita, perto de minha casa. Sem perder tempo me inscrevi, era o ano de 1998, e nela permaneci até ser desativada em 2000. 

2. Como se deu sua formação em teatro em Porto Alegre? Como mencionado, inicie minha trajetória teatral, nesta oficina, perto de minha casa, localizada na periferia da capital gaúcha. Ela foi desativada em 2000, pois a prefeitura(era um projeto chamado “Descentralização da Cultura”, financiado pelo município) acreditou que os integrantes dessa se tornaram profissionais, e poderiam seguir uma trajetória independente. E assim nasceu o Grupo Teatral Bacantes, fundado em 2000, no qual fui ator, diretor e produtor, durante 10 anos. Paralelo a isso, comecei a ministrar oficinas teatrais, também na periferia de Porto Alegre, bem como ingressei na faculdade de teatro( UERGS - Universidade Estadual do Rio Grande do Sul).
Marcos Rangel e Edgar Benitez em Perversus
3. Conte-nos sobre o Grupo Bacantes, sua história e suas ações? 
O grupo foi oriundo da oficina teatral Parque dos Mayas, dentro do projeto já citado, e nasceu em 2000. Já neste ano, fomos convidados a participar do Festival de Teatro de Curitiba, com os espetáculos “A Guerra” e “Noites de Sexo & Violência”, ambos dirigidos por Marcelo Restori(diretor do Grupo Falos & Stercus), ainda quando oficineiro do projeto. Paralelo, a isso fomos convidados a reabrir um projeto denominado “Caras Novas”, o qual apresentamos “Noites de Sexo & Violência”. Infelizmente, ambas montagens não tiveram carreira longa, visto que boa parte do elenco, não quis seguir investindo na carreira artística. Assim, em 2001, totalmente independentes, seis ex-oficinandos “correram atrás” de Marcelo Restori, para dirigir o espetáculo “A Taverna”, baseado no texto “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo. Esse trabalhos nos apresentamos algumas vezes, e era calcado numa estética firmemente corporal(quase uma mescla de teatro/dança) , advinda dos treinos e estudiosos que Restori nos apresentava. Alias, toda a trajetória do grupo, foi focada em uma estética de teatro/dança, bastante inclinada a performance. Então, no final de 2003, precisávamos de um diretor mais presente e queríamos prosseguir com nossas pesquisas( corporais e estéticas), assim, na época eu, mais dois atores (José Renato Lopes e Marcos Rangel), atuamos e dirigimos em coletivo a peça “Perversus”, com texto assinado por Wagner Ragide(na verdade meu texto... rsrs... mas como não queria ser julgado, assinei com um pseudônimo... rsrs). A peça fez poucas apresentações, mas foi bem recebida pelo público. Já em 2004, o grupo recebe seu primeiro financiamento para montagem do espetáculo “Romeu e Julieta Invertido”, com direção de Marcelo Restori. Nesse ano, eu me afastei do grupo por um tempo, embora sempre em contato(afinal eu era o proponente da peça financiada e assinava todos os cheques para elenco e equipe técnica, além de grande amigo de José Renato Lopes, último integrante originário da formação do grupo, que me deixava a par de como andavam as coisas) e só retomei em 2005 como diretor e ator. E assim, dirigi e atuei em alguns trabalhos como: “O Retorno da Deusa”; “Mario Quintana - Homem pássaro”; “Cópula”; “O Gato Preto”; “Sou a criatura do que vejo – Identidade Anônima” e “Inflexíveis Ligações”. Além, de ministrar oficina demonstrando ao público o processo de criação dos espetáculos, bem como de nosso treinamento. Lógico sabemos, que “nem tudo são flores”, mas durante esse tempo ao qual permaneci no Bacantes, aprendi muitas coisas com meus colegas, assim como devo ter trocado algo com eles. Era triste nos sentirmos sempre marginalizados por advirmos de um projeto de periferia, e buscar o centro da cidade para espaço de ensaios e apresentações de espetáculos, e sermos sempre colocados como os “últimos da fila”. Assim, fomos aprendendo a recorrer a autoridades políticas, para solicitar parcerias, pois sem espaço e verba é praticamente impossível se fazer qualquer tipo de arte. Mas, a dificuldade foi aumentando, as limitações eram recorrentes, os interesses de cada um dos integrantes começou a se desencontrar... e assim, cada um de nós tomou um rumo, e o Grupo Teatral Bacantes por enquanto hiberna... mas ainda há de despertar!!!

4. Você diz que assinou um texto com um pseudo por medo de julgamentos, certo? Como você se sente hoje em relação a isso? O que pensa sobre isso e o que acha da crítica teatral?
Assinei o texto "Perversus" com um pseudônimo, pois era um primeiro texto meu que levava a público. E o novo sempre é mais julgado, os espectadores, especialmente a critica vai "armada" e jamais aberta. Alias, esse foi outro aspecto que aprendi nos trabalho que vejo em São Paulo/SP, a estar desarmado.... mas sim, nós artistas sempre usamos o olhar critico, mesmo assim precisamos estar a par do contexto e da situação. Outro dia fui numa mostra de teatro internacional aqui em sampa, e assisti um espetáculo muito instigante da Palestina,( o qual não vou citar nome) mas por exemplo achei muitas das ações "quase amadoras" ao meu ver. No entanto, ao ler o programa  da peça vi que se tratava de um grupo de atores que faziam em meio a todo caos de guerra que o país sofre, e inclusive integrantes do grupo haviam sido assassinados. Lógico, essa é uma situação limítrofe, mas afinal o que é arte, esse grupo como muitos outros artistas tem seus limites. Um artista que nasceu em uma família com dinheiro, pode fazer na infância, juventude, etc... aulas de bale, piano e canto... e então? será que esse artista, não vai se diferenciar de outro? Temos que ser maleáveis e a critica teatral também.
Edgar e Antônio Petrin
5. Qual foi o momento que você decidiu sair de Porto Alegre rumo a São Paulo? E porque São Paulo? 
Sempre quis sair, sempre.. pois sempre quis atuar na televisão... e sabia que a televisão acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além das limitações sofridas pelo teatro em outras cidades brasileiras que não essas duas. Sejam a ausência de público, espaços e incentivos financeiros... e eu não agüentava mais passar por isso no sul. Não, que em São Paulo e Rio de Janeiro, seja o paraíso da cultura, pois não é... mas sim... se tem mais público, mais espaços e mais incentivos financeiros. E o desejo de atuar na televisão, sempre me agradou pela possibilidade de um público conhecer-me de algum modo e se interessar em ver os espetáculos que atuo e dirijo, com uma mente mais aberta. Não sei, se ainda acredito piamente nisso, mas de todo modo, meu maior sonho é atuar em televisão. E o engraçado e que me recordo de uma aula teórica durante meu período na faculdade de teatro,  onde eu defendia que todo ator sonha em atuar na televisão(ainda acredito nisso, pois afinal televisão, teatro e cinema, são veículos de atuação... ora e todos tem suas vantagens e desvantagens, porque um é celebrado e outro marginalizado?),  nisso gerou-se um longo debate, e um de meus colegas (daqueles que tudo precisa um porque, para que, etc? ) foi totalmente radical em seus argumentos, renegando a televisão. Logo entramos de férias, e minha colega me pede para ligar a televisão e ver quem estava no elenco da “Malhação” da Rede Globo... para minha surpresa era o tal colega. Para finalizar escolhi São Paulo, porque acho que o Rio de Janeiro, é muito banalizado para essa questão de “quero atuar na tv”(assim todo mundo vai morar lá, com isso na cabeça), e eu não tenho “cacife” para concorrer com tanta gente esteticamente linda, prefiro mostrar trabalho e ser convidado. 

6. Como foi a sua chegada a São Paulo? Foi o que você esperava? Como tem acontecido a vida por aí? 
Já tinha vindo de passagem em 2009, e fui conquistado pela cidade. Acabei a faculdade e me mudei em janeiro de 2010. Bem, sabe aquela frase “São Paulo é uma selva de pedras”? Então, ela é... e o que se encontra numa selva? Novidades, medo, belezas... Costumo dizer que essa cidade é uma mãe, uma mãe “dura” que ensina na marra, mas tem carinho por você. A chegada e a vida aqui, se mantém, como em muitas outras cidades.. porém aqui os horizontes de trabalho se abrem nitidamente, e tudo muda muito rápido. Há muita possibilidade de crescimento, de trocas... a cidade possui muito dinheiro e isso a torna mais rica logicamente, facilitando muitas coisas. Bem, meu único arrependimento, nesses meus 31 anos, é não ter vindo para cá antes... pois sinto que aqui tive que começar do zero, mesmo com toda bagagem que experimentei no sul. Pois, vim sem conhecer absolutamente ninguém, nenhum grupo teatral, ator ou atriz, diretor, autor... nada.. sem indicação nenhuma (premissa básica do meio cultural)... vim na “cara e na coragem”. E quem me conhece sabe que não sou de “puxar saco” de ninguém, nem fazer aquela politicagem de interesse.. sou muito humilde e verdadeiro com todo mundo. E assim, tenho sido... e com isso, naturalmente, sem forçar, fui conhecendo pessoas maravilhosas, que abriram portas para mim; como o produtor e diretor Eduardo Figueiredo, ao qual sou eternamente grato. Quanto ao que esperava... bem, vim atrás de meus sonhos e neles mantenho meu foco. E acho que tenho me surpreendido bastante com a ética que empenho em direção aos meus objetivos.

7. Como os paulistas enxergam o Teatro Gaúcho? E como o Edgar, vê hoje o Teatro Gaúcho, com este olhar distanciado?
O pessoal respeita e admira muito os artistas do sul, se tem muita abertura aqui para receber trabalhos advindos de outros locais. Quando falo do teatro que se faz em Porto Alegre/RS, sempre falo com orgulho que somos muito críticos e tremendamente profissionais... e que acredito que o teatro no sul se faz assim, pois apresentamos muito para colegas da classe artística. Logo, nos empenhamos com muita garra para sermos aceitos e mostrar o quanto temos potencial e somos bons. 

8. O que mais tem saudades tratando-se da vida cultural aqui dos pampas? 
Sem duvida do meu trabalho em grupo, do treinamento que fazíamos e da dedicação e seriedade com que montávamos nossos espetáculos.

9. Edgar, o que tem feito por aí? Quais são teus projetos? Renasci aqui em 2010... portanto nesse ano, completo 04 anos, e já começo a andar!!! Sinto-me feliz demais! Como já citei Eduardo Figueredo, produtor e diretor( hoje também meu amigo), me abriu as portas do mercado cultural em 2011. Assim, fiz alguns trabalhos para ele como assistente de direção, como produtor cultural, e como produtor de eventos. Esse ano ele vai me dirigir  no espetáculo chamado “O Escrevinhador e a Guardadora de Livros”, ao qual fomos aprovados para captação pelo Proac-ICMS(programa de captação de recursos em São Paulo) , vale lembrar que ainda estamos captando. Paralelo a isso, estou com dois projetos bacanas como diretor, um solo e outro espetáculo de entretenimento com a atriz Ellen Rocche no elenco. 

10. Quais são tuas referencias teatrais que ficaram por aqui e as tuas referencias de SP? 
Acho que a maior mudança foi deixar de ser tão critico, e ser mais disponível a outros tipos de fazer teatral. Como por exemplo tinha muito preconceito com o teatro de entretenimento, mas hoje não tenho nenhum, pois aqui em São Paulo, se faz esse tipo de trabalho com um empenho e profissionalismo tão grande, que o resultado sai fenomenal. No sul também, mas como a classe artística é muito acadêmica, fica pressa a estéticas e nomes de estudiosos. Sempre aprendi que para se fazer teatro, não se pode ter preconceito, e aqui em São Paulo, não tenho nenhum, vejo tudo com grande disponibilidade.   
11. São Paulo em relação a políticas públicas? Como se dá esse processo por aí? O que tu destacaria positivamente e negativamente? 
A cidade tem mais espaços, mais incentivo e mais público... mas também tem mais profissionais no mercado. Há muito o que se melhorar, percebo que grupos antigos sempre são prioridade para serem contemplados em editais e leis de incentivo, como no sul também. O custo de vida é alto na cidade, e para isso os artistas tem que trabalhar muito. Uma grande possibilidade de sustento,  aqui é ministrar oficinas e cursos de teatro, pois existem muitas ofertas de vagas em projetos sócio culturais. Acho negativo,  termos que captar recursos através de ICMS no estado de São Paulo, pois o governo poderia administrar essa verba e abrir editais, ofertar bolsas, etc... pois captar recursos é terrível, as empresas  só querem fazer publicidade gratuita com essa dedução, e se o seu projeto não der grande visibilidade a ela, não interessa. É o que muitos artistas dizem, essa pode ser uma das maiores censuras de todos os tempos. 

12. Indique alguns espetáculos e grupos que são referencias hoje em São Paulo? 
Como trabalhei muitos anos e comecei minha trajetória em grupo, em São Paulo, não acompanho o trabalho de muitos grupos, mas destaco o “Pessoal do Farroeste”, já assisti três trabalhos deles, e não faço ressalva nenhuma, só aplaudo. E, cito o atores e diretores independentes “Elias Andreato”e “Otávio Martins”, por todos trabalhos que assisti deles, e sempre saio em estado de alegria profunda. Quanto aos espetáculos, não sei citar nenhum, pois há tantos bons trabalhos, e ao mesmo tempo é tudo tão transitório que não me vem nomes em mente.

13. Pretendes retornar a Porto Alegre? 
Somente para algum trabalho fechado, e datado. Morar não. 

14. Indique outro profissional de teatro que também foi morar por aí para realizar uma entrevista. 
Sissi venturin

15. Grato e abraços! 
Eu quem agradeço, de coração. Obrigado por registrar as palavras de teus colegas. Parabéns pela iniciativa!!!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

DIÁLOGOS PARA ESCAPAR por CÁSSIO AZEREDO


O Blog Válvula de Escape, segue com a série de entrevistas com diversos profissionais das Artes Cênicas do estado e do Brasil, dentro do projeto "DIÁLOGOS PARA ESCAPAR". Projeto que pretende utilizar este espaço para deixar escapar a voz dos arquitetos da cena atual. E nesta edição, postamos a entrevista de Cássio Azeredo, realizada via e-mail por Diego Ferreira. Cássio Azeredo é diretor do Teatro do Clã e sócio da Marca Produções. Ator e professor de teatro no projeto Fábrica de Sonhos, graduado em Teatro na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. 


Como o teatro surgiu em sua vida?
Geralmente as pessoas tem uma resposta romântica para esta questão... A minha é bem comum e sem graça, como são algumas coisas boas da vida. Sempre gostei de arte. Na escola estive a frente de iniciativas culturais, e estar em grupo sempre foi uma prática. Mas o primeiro contato se deu a partir do convite de uma colega para fazer um curso de iniciação teatral que estava sendo oferecido aqui em Montenegro, na Cia de Teatro Tio Tony. De lá pra cá, essa experiência foi se intensificando e passando por várias etapas: inicialmente o sonho, os passos iniciais, uma possibilidade real, a atividade docente, uma oportunidade profissional, a Graduação em Teatro, o grupo profissional e tudo mais. Ainda não sei se é isso que eu quero pra mim, mas já estou com essa dúvida há 11 anos.

  Teatro do Clã: Contextualize e divida conosco a idéia de formar um grupo, o histórico e dos projetos atuais e futuros.
A criação desse grupo é o resultado natural de uma busca incessante por um trabalho consistente em arte. Uma busca minha e também do meu parceiro de caminhada, Marcos Cardoso. Acho que o Clã é uma porta aberta que dá passagem para essa vontade que já existia em potência dentro de nós.
Por muito tempo priorizamos nossa atividade docente. Ela sempre foi e ainda é muito gratificante, mas é também uma experiência limitada, pois o processo com os alunos tem um caráter cíclico que não nos permite aprofundar. Também brincamos que esse grupo é “uma desculpa esfarrapada pra juntar um monte de gente legal em prol de um objetivo comum”.
São muitos projetos que nos inspiram atualmente. Primeiramente queremos seguir com o Rei Cego, aprofundando e nos desafiando dentro dessa proposta, além de continuar o treinamento pessoal que estamos desenvolvendo. Paralelo a esse trabalho artístico temos uma preocupação muito grande em viabilizar nossas produções, formar nosso público, estabelecer nossa sede e nos consolidar enquanto grupo.
O Rei Cego - Elenco e Diretor- Foto: Jenifer Berlitz


 Como é o processo de trabalho do Teatro do Clã?
Acredito que o processo no Clã ainda não “é”. Ele está sendo construído constantemente. Contudo é possível apontar algumas linhas gerais. Temos uma divisão do grupo em duas esferas que se complementam e se contrapõem a todo instante. Uma diz respeito ao trabalho artístico/criativo. Que compreende treinamento, pesquisa e montagem de espetáculos. A outra esfera, chamamos de “institucional” que é a produção, divulgação, projetos, vendas, enfim, a esfera da viabilidade das nossas produções. Obviamente o trabalho artístico é o centro das nossas inquietações, porém sem um olhar sério e inovador sobre a viabilidade, o nosso fazer artístico permanece preso. Repito inúmeras vezes que também compete ao artesão criar as ferramentas necessárias para qualificar a sua criação.
Quanto ao processo de trabalho pratico temos alguns princípios que nos guiam, porém estamos em busca de uma poética que nos identifique e nos sustente. Algumas possibilidades são inspiradoras como a musicalidade, a teatralidade assumida, o trabalho coletivo e o resultado estético sustentado por uma pesquisa intensa. Quanto ao Rei Cego, ele é resultado direto de um processo de colaboração e criação em grupo. Ele foi um esboço, uma forma inicial que aos poucos foi ganhando cor e expandindo a própria forma. A criação de matrizes pré-expressivas (continuação da minha pesquisa de TCC) e mais recentemente a inspiração nos princípios da biomecânica nos auxiliaram nessa criação.

Quais os pontos positivos e negativos em se produzir teatro no interior do estado?
Tenho duas visões quanto a esta questão. A primeira é que “teatro é teatro em qualquer lugar” e que estas limitações geográficas não devem ser empecilhos ao processo. Até porque acredito que o mais difícil no trabalho com teatro é encontrar bons parceiros para suar a camiseta e isso independe do lugar em que se está inserido.
Por outro lado, sei que as oportunidades são maiores para quem produz nos grandes centros. Além disto, há um pré-conceito com o que é produzido fora da capital, embora as universidades (UERGS, UFSM e agora em Pelotas) estejam contribuindo para desmistificar esta questão.
Um exemplo dessa situação é que recentemente fomos impedidos de concorrer ao Prêmio Tibicuera de Teatro Infantil por estarmos legalmente registrados em Montenegro e por “não pertencermos ao circulo porto-alegrense”. E o mais paradoxal é que estávamos realizando temporada em Porto Alegre, dentro de um teatro municipal, com pessoas da equipe residindo na capital. Sabemos que o prêmio é promovido pela prefeitura de Porto Alegre para incentivar os artistas locais, mas entendemos que esse pensamento vai na contramão da efervescência cultural que está surgindo com os grupos do interior do estado e principalmente por Porto Alegre tratar-se de um grande centro que abriga artistas de diferentes cidades.


 Em 2011, eu assisti ao trabalho de vocês “O Rei Cego” e escrevi minhas impressões. Desde lá, percebo que vocês estão em constante trabalho e reciclagem na manutenção do espetáculo. Na ocasião escrevi: "O Rei Cego é um trabalho digno de aplausos, um dos destaques da cena gaúcha, que ainda vai dar muito que falar, pela profissionalização, criatividade e entrega do coletivo. Escrevam o que estou dizendo, este trabalho vai estar nas principais mostras de teatro do País”.  Algum tempo já se passou, e isto vem se concretizando. Na tua opinião, quais são os fatores que auxiliam na manutenção e visibilidade que o espetáculo vem ganhando?
Suor, insistência e renúncias seriam pistas iniciais para apontar uma possível resposta. Acho que um pouco de egoísmo também. O Rei foi criado para satisfazer uma vontade nossa. Queríamos um teatro que fosse interessante para nós, antes de querer que ele significasse para mais alguém. Como dificilmente ficamos satisfeitos, essa busca constante nos move em busca de lugares novos o tempo todo. Acho que a preocupação do grupo enquanto instituição tem sido outro fator determinante nesta questão.

    Cássio, você se desdobra em muitas funções: ator, diretor, professor, produtor, pai, iluminador, etc. Sei que não tem como separá-las, mas se você tivesse que escolher uma só, em qual situação você se realiza mais? Fale um pouco sobre cada função e a MARCA Produções. 
Confesso que por vezes esse “vendaval” de funções ainda me assusta e me impede de aprofundar algumas questões. O que me consola é perceber que as essências estão conectadas e convergem para o mesmo lugar. Cada função tem seu sabor, e estou aprendendo a não apressar as coisas e aproveitar com intensidade a experiência do momento. Quero atuar. Meu ultimo trabalho foi o Mendigo e o Cachorro inspirado no texto do Brecht, trabalho resultante do meu TCC. De lá pra cá eu tenho só dirigido e isso me dá muito prazer, porém subir no palco está me fazendo falta.
A Marca Produções Culturais é a casa dos nossos projetos e existe como ferramenta para a viabilização das nossas produções. Administrar a empresa dá bastante trabalho, mas é outra aprendizagem que apesar de ser chata e burocrática, me motiva na medida em que sei que toda esta organização reflete diretamente na viabilidade do produto artístico.

     Duas questões: Como você vê o papel da crítica e como você recebe as premiações, se puder divida conosco os prêmios já recebidos por ti e pelo grupo, e como estes prêmios redimensionam a tua carreira? 
Compactuo com a ideia do Fabinho (Fábio Castilhos), quando ele diz que os prêmios trazem um selo de legitimidade para o trabalho. Ganhei sete prêmios como melhor direção em festivais nos últimos dois anos. Isso motiva, mas não é o que move de fato. O que estamos conseguindo com o Rei, o retorno do público, o carinho que recebemos por onde passamos são bem mais significativos.
Quanto ao papel da crítica, eu acho um ato extremamente generoso quando feita com responsabilidade. Alguém que dedica um pouco de seu tempo/conhecimento para falar sobre nosso trabalho merece ser ouvido com carinho e atenção. Lidamos muito bem com isso.
O Rei Cego. Foto: Jenifer Berlitz

    E o Teatro-Educação? Relate um pouco sobre tuas experiências junto ao projeto Fábrica de Sonhos e como tens acompanhado a trajetória dos alunos, desde a entrada, a permanência e saída? Como ocorre essa transformação através da arte-educação na vida dos teus alunos?
A Fábrica de Sonhos em pouco tempo já é um projeto consolidado. Hoje atendemos 500 alunos divididos em cinco cidades. Criamos a Fábrica para ser um projeto “pequeno e precioso”, lugar onde reverberam as descobertas do grupo profissional (Teatro do Clã). Dentro da nossa metodologia, temos diversos módulos de trabalho que vão desde os primeiros passos até o experimento de linguagens específicas. Atendemos desde crianças na pré-escola até “meninas de terceira idade”. Transitamos entre duas abordagens principais: a essencialista e contextualista. Ora privilegiando o fazer teatral, ora utilizando-se do teatro como um meio para a formação do indivíduo e ainda trabalhando com as duas possibilidades juntas.
O aluno que tem um contato com a arte teatral acaba por ter uma visão diferenciada de mundo e a partir desta vivência transita do papel de expectador para um ser ativo na sociedade em que está inserido. Além disso, acredito que ele aprende a gerir conflitos a partir da compreensão das diferenças do outro, diferenças estas que são geradoras dos grandes problemas da sociedade atual. Felizmente hoje temos alunos que estão ingressando na universidade, e também que estão trabalhando diretamente conosco, alguns grupos como o GFAC – Grupo Farroupilha de Artes Cênicas vem desenvolvendo um trabalho bastante consistente e caminha para a profissionalização.

  O que te faz ESCAPAR tratando-se de teatro?
Envolver-se e apaixonar-se num processo criativo.

 Quais espetáculos têm assistido? Como você enxerga a atual situação das artes cênicas no Rio Grande do Sul?
Assisti a dez peças teatrais nos últimos dois meses. Destaco Nossa vida não vale um Chevrolet com direção de Adriane Mottola, O Fantástico Circo teatro de um homem só, da Cia Rústica e Tartufo do grupo Farsa. O estado tem uma produção diversificada e alguns grupos com trabalhos de muita qualidade e que são referências como o Teatro Torto, UTA, Santa Estação, Terreira da Tribo entre outros. O grande desafio é contribuir para a criação de um sistema que consiga dar melhores condições de circulação aos grupos para que as produções não fiquem restritas apenas a sistema de financiamentos públicos e editais.

 Quais as expectativas com as apresentações do Rei Cego no Palco Giratório e circuito Teatro a Mil do SESC?
Que estas apresentações abram muitas portas para novos projetos e que sejam um momento prazeroso para aqueles que optaram em dividir conosco parte do seu tempo.

  Gostaria de compartilhar mais alguma coisa, pensamento ou idéia neste espaço? Fique a vontade.
Agradecer pelo espaço e pelo trabalho que vens desenvolvendo através do seu blog (que é uma referência em teatro) e pela parceria que ao longo do tempo estamos mantendo. Foi um exercício interessante refletir sobre a nossa prática, e compreender melhor alguns conceitos que nos eram escuros.
Queria ainda compartilhar o endereço do nosso site www.marcaproducoes.com.br para que conheçam nossos projetos.

Finalizo com um pequeno trecho do texto de Peter Brook que tem sido uma inspiração:

“Nunca acreditei em verdades únicas.
Nem nas minhas nem nas dos outros. (...)
Mas descobri que é impossível
viver sem uma apaixonada e absoluta
identificação com um ponto de vista”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

DIÁLOGOS PARA ESCAPAR por FÁBIO CASTILHOS


A Decisão: Grupo Trilho. Foto: Ana Mendes

De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”.  B.B

O Blog Válvula de Escape, segue com a série de entrevistas com diversos profissionais das Artes Cênicas do estado e do Brasil, dentro do projeto "DIÁLOGOS PARA ESCAPAR". Projeto que pretende utilizar este espaço para deixar escapar a voz dos arquitetos da cena atual. E nesta edição, postamos a entrevista de Fábio Castilhos, realizada via e-mail por Diego Ferreira. Fábio Castilhos é ator/diretor/dramaturgo e integrante do Grupo Trilho de Teatro Popular de Porto Alegre juntamente com outros artistas. Graduado em Teatro pela Uergs e pelo TEPA, foi contemplado com o Troféu Tibicuera de Teatro 2011 em duas categorias: Dramaturgia e Direção. Dentre seus últimos trabalhos estão "O Baú - Brincanças e Lembranças", "A Decisão" de B. Brecht e "Ela - A Vespa Libertada".  

1.      Quando e como iniciou a sua trajetória teatral?

Meu primeiro contato foi na escola em 1997. Na sétima e oitava série do Ensino Fundamental a disciplina de artes visuais era substituída pela de teatro. Eu curtia muito aquelas aulas, com a professora Sônia Pellegrino, que infelizmente faleceu. Depois, em 2002, tendo encerrado o Ensino Médio, não passei no vestibular (para Ciências Sociais) e fiquei meio perdido. Quase sem querer me inscrevi num curso de teatro para iniciantes com o Zé Adão Barbosa. Daí em diante não parei mais.

2.      Como se deu a sua formação?

Depois desse primeiro curso com o Zé Adão, entrei no curso de Formação de Atores do Tepa (Teatro Escola de Porto Alegre) no ano de 2003. Neste curso tive aulas com o próprio Zé Adão, o Luiz Paulo Vasconcellos e a Jezebel De Carli. Através da Jezebel conheci a UERGS, prestei o vestibular e passei. Isso em 2004. Formei-me no curso de Graduação em Teatro: Licenciatura (o curso inicialmente se chamava Pedagogia da Arte) em 2007.

3.      Atuar ou dirigir?

Os dois! As duas coisas me dão prazer, me divertem. Talvez, daqui alguns anos eu dirija mais do que atue, sempre acho que isso possa acontecer, mas por enquanto isso não me preocupa.

4.      Qual o papel da universidade na formação de um artista?

Na minha formação foi essencial. Lá eu tive oportunidade de conhecer diversas práticas e teorias. Existe uma metodologia, um caminho. Aí, tu podes escolher qual vai seguir. Porém não é o único caminho. Acho que fora da academia a busca por teoria é mais difícil, a universidade facilita esse acesso. Acho que é isso, a universidade funciona como uma facilitadora, ela te oferece caminhos, possibilidades, mas não basta, tu tens que ir além, ela não te transforma num artista.

Cleo e Clea.  Direção Heitor Schmidt. 
5.      Grupo de Teatro ou Teatro de Grupo? Fale sobre o Grupo Trilho?

Eu acredito muito no Teatro de Grupo. Na verdade, pouco importa a nomenclatura, o que importa mesmo é como se dá o processo de trabalho, como funciona e são estabelecidas as relações. Eu não consigo pensar o teatro em uma função só. Se estiver atuando quero interferir na luz, no figurino, na dramaturgia, enfim a criação deve ser coletiva. Mesmo que haja funções (diretor, cenógrafo, etc.) elas devem dialogar, sem hierarquia, é o que costumam chamar de criação colaborativa.
            Outra questão que acho importante em um coletivo é que as pessoas acabam criando objetivos muito próximos, laços artísticos. Numa companhia, onde as pessoas são contratadas, os objetivos são muito diferentes, o diretor quer fazer a sua peça, o ator quer “brilhar”, tem muito mais “ego” envolvido. No grupo essa questão do ego fica mais diluída, pois o objetivo é do coletivo e não somente do indivíduo.
            O Trilho é um grupo que migra entre criações coletivas e colaborativas, dependendo do objetivo que temos. Cada integrante tem algumas funções que desempenha, mas nada é absolutamente fechado, do tipo fulano só faz isso, sicrano só faz aquilo. Vamos criando e nos organizando da forma que melhor possamos cumprir os objetivos que traçamos.

6.      Em 2011 o Grupo Trilho experimentou pela primeira vez direcionar o seu trabalho ao público infantil. Como foi esta experiência, qual foi à premissa?

Partimos de uma necessidade. De uma não, de várias. A primeira era que quando fazíamos espetáculos no nosso espaço, o Grêmio Esportivo e Cultural Ferrinho, quem ia assistir eram as crianças, elas que insistiam e os pais acabavam acompanhando. Só que as peças eram adultas e até pesadas para elas. Daí pensamos: precisamos fazer algo para essas crianças. Outra necessidade foi que todos nós do grupo também somos educadores e trabalhamos com crianças, enfim vários outros pormenores nos levaram a pensar num trabalho para o público infantil.
E a experiência começou justamente aí. Sabíamos que eu iria dirigir e trabalhar na construção da dramaturgia e que a Caroline Falero e a Giovanna Zottis iriam atuar, e só. Não tínhamos ideia de texto, nem de um tema. Começamos improvisando muitas coisas e aos poucos a peça foi aparecendo. O processo todo durou oito meses. Foi uma experiência incrível, as atrizes se divertiram muito durante o processo, a ideia era essa. Mas eu não. Quer dizer, é claro que eu me diverti, mas teve momentos muito difíceis que eu não tinha a menor ideia de onde aquilo ia parar. Mas foi muito gratificante, por que foi um processo de criação muito livre, que eu tinha muita vontade de experimentar.

7.      O que o teatro político, Brecht e a periferia do Humaitá contribuíram para a construção da dramaturgia de “O Baú”?

Contribuíram por que esses elementos estão na nossa gênese, na nossa pele, na nossa alma. Eles são geradores da nossa estética, da nossa ética. Não conseguiríamos fazer uma peça para as crianças que fosse apenas “bonitinha” e “engraçadinha”. De alguma forma nós temos de cutucar o espectador, seja ele adulto ou criança. E eu creio que conseguimos fazer isso. Tanto crianças como adultos saem de “O Baú – Lembranças & Brincanças” com dúvidas, com anseios. O espectador se diverte, mas pensa também. E isso é um grande barato. 


8.      A trajetória do Trilho e a tua são marcadas pela presença do teatro político sendo influenciado pelo teatro e teorias de Brecht. Quando descobriu Brecht e qual a real importância dele no seu trabalho e na sua identidade?

Descobri de fato o Brecht durante o segundo semestre na Uergs. Eu fui morar em Montenegro e vivia para o curso. Virei rato de biblioteca. Li todas as suas peças. Li inicialmente como um curioso, mas desde o inicio eu me interessei muito pela sua obra. Ele tocava em assuntos que me interessavam, e que até então eu não tinha visto muito no teatro. Aos poucos fui me aprofundando mais sobre o seu trabalho, suas teorias. Não sou um especialista em Brecht, tenho muito ainda que conhecer sobre o seu trabalho, mas ele realmente me instiga e me interessa.

9.      O grupo Trilho carrega em seu nome “Teatro Popular”, ou seja, Grupo Trilho de Teatro Popular. Como você enxerga e pratica este “teatro popular” dentro do grupo e como define este termo em seu trabalho. Quais questões políticas, estéticas ou sociais permanecem na cena atual?

Bom, teatro popular é um termo bem complexo e até perigoso, pois ele pode significar muitas coisas. Dentro do Trilho, é até bem claro o porquê dele no nome. É “popular” primeiro por que trabalhamos na periferia de Porto Alegre. Em segundo lugar por que pensamos em ações que tenham um cunho sócio-político, que a arte tem como função colocar em dúvida esse sistema desigual em que vivemos, criticá-lo nos mais diversos âmbitos da sociedade. Acho que tem uma frase do Brecht que resume muito bem essa questão: “A arte deve optar, pode se transformar no instrumento de alguns que diante da maioria assumem um papel de deuses e do destino ou pode aliar-se a grande maioria transformando-se em arma a serviço do povo”. A nossa estética, poética e ética está totalmente interligada com esse pensamento.
           
Ela - A Vespa Libertada, Grupo Trilho  
10.  Como se dá o processo de trabalho do Grupo Trilho? Quais são suas principais influências?

Como eu disse anteriormente o processo de trabalho do grupo é meio mutante, se modifica na medida em que achamos necessário, mas sempre democrático, sem estabelecer hierarquias, baseado no coletivo. É claro que algumas coisas vão se estabelecendo naturalmente. Um exemplo é justamente as influências do Trilho. A sua principal influência é o Bertolt Brecht, mas cada integrante carrega consigo as suas influências, que acabam afetando os outros integrantes, numa reação em cadeia. E nessa amálgama toda vou citar alguns nomes que me influenciam e que de alguma forma influenciam o Trilho também: Grotowski, Peter Brook, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho, Oi Nóis Aqui Traveiz, Cia. do Latão.

11.  Quais profissionais gaúchos e nacionais tu destacaria, que contribuem para um teatro mais forte e engajado? (Ator/atriz, diretores, teóricos, etc...)

Bom, pensando em engajamento, que, aliás, é uma palavra que eu não gosto, prefiro crítico, na cena gaúcha não poderia deixar de citar o “Oi Nóis Aqui Traveiz”. Outros grupos muito bacanas são a “Cia. do Latão”, “Brava Companhia”, “Teatro Máquina”. O Sérgio de Carvalho, que é diretor da Cia. do Latão, pode ser citado como um grande teórico também. Assim como a Iná Camargo Costa, a Stella Fisher (que é atriz também), a Ingrid Koudela.

12.  Falando em política... Como você vê as políticas públicas voltadas para o incentivo da cultura em âmbito municipal, estadual e federal? 

É ruim, já foi pior, ainda tem muito que melhorar. Falta investimento, falta um critério de avaliação melhor formulado, falta diversificar as áreas de atuação, os repasses não podem atrasar, a “burrocracia” deve ser diminuída, os incentivos fiscais devem ser repensados, enfim, num país onde pessoas morrem de fome, morrem em filas de hospitais, que a educação pública é sucateada e que políticos roubam a vontade e ficam impunes, já era de se esperar que a cultura ficasse relegada ao décimo plano.  

13.  Como você enxerga a atual cena gaúcha? Quais grupos e cias têm desenvolvidos projetos bacanas e o que falta para o teatro gaúcho?

Bastante diversificada e em expansão. Grupos do interior ganhando força como o Teatro do Clã de Montenegro e o Ueba Produtos Notáveis de Caxias, só para citar dois. Já em Porto Alegre temos alguns grupos que vem desenvolvendo um trabalho continuado que merecem atenção, alguns antigos, outros mais novos, como o Oi Nóis, a Santa Estação, o Teatro Sarcaústico, a Cia Rústica, o Grupo Mototóti, entre outros.
O que falta é os trabalhos serem mais bem aprofundados. Até por uma questão de mercado, monta-se muito rápido um trabalho, a peça cumpre uma, duas temporadas no máximo, circula durante um ano (quando muito) e deu, acabou. Vem outro prêmio para montagem e o ciclo recomeça. Não há trabalho que consiga ter um aprofundamento maior. É um problema dos financiamentos, que geralmente são para montagem e pouco para circulação ou fomento de um grupo.

O Baú - Lembranças e Brincanças. Direção Fábio Castilhos. Grupo Trilho Foto: Bárbara Ferraz
14.  Ano passado o espetáculo “O Baú – Brincanças e Lembranças” teve grande aceitação do público e critica e indicado ao Prêmio Tibicuera e você foi premiado como Diretor e Dramaturgo. Como você recebeu estes prêmios e se prêmios como este ajudam em alguma coisa?

Eu fiquei muito feliz e surpreendido com os prêmios. O prêmio de dramaturgia até tinha uma esperança, mas diretor eu era o azarão. Quando a gente começa um trabalho não pensa em prêmios, se vai agradar, se está adequado para isso. Porém ganhar um prêmio é muito bom, dá um “selo de qualidade” para o trabalho, é um reconhecimento. O grupo ficou um pouco mais conhecido, a peça, e eu também. Sabe que depois dos prêmios muitas pessoas, amigos, conhecidos, já fizeram essa pergunta, e eu sempre respondo brincando: “Antes eu era um Zé-Ninguém... Agora eu sou um Zé-Ninguém premiado!”

15.  Quais os teus próximos projetos junto ao Trilho? Nova temporada e novos espetáculos?

O principal objetivo por enquanto é fazer o Baú circular. Temos uma nova temporada no Teatro Bruno Kiefer, na Casa de Cultura Mario Quintana (26/05 a 24/06, sábados e domingos, 16h) e algumas apresentações agendadas. Estamos tentando manter uma tradição que é no aniversário do Ferrinho fazermos uma programação de apresentações lá no espaço, que batizamos de “Estação Ferrinho”. Em 2010 foi muito bacana, foram 5 dias de apresentações, seminário, coquetel, show de música. 2011 estávamos em plena temporada e não conseguimos fazer um evento tão grande, mas não deixamos passar em branco. Este ano queremos retomar pelo menos os mesmos 5 dias de 2010.
E também estamos treinando algumas vezes, lendo coisas, com calma, talvez daí surja algo novo. Por enquanto novo espetáculo mesmo só no plano das idéias, não temos ainda uma previsão para um novo trabalho. 

16.  O que te faz ESCAPAR tratando-se de teatro?

Assistir a uma boa peça, estar num processo de criação e participar de uma boa oficina de teatro. Aí eu escapo, pra bem longe!

As Criadas. Direção Bruna Immich.
Foto: Kiran
 
17.  Alguma vez já pensou em desistir?

Já, muitas vezes. Mas daí me dou conta que não sei fazer outra coisa, então desisto de desistir.

18.  Futuro?

Estar com o Trilho, bem constituído, com o nosso espaço, o Ferrinho, a pleno vapor, dirigindo, atuando, escrevendo, ensinando, aprendendo. Tenho vontade também de experimentar outras linguagens, como cinema e dança e tudo mais que esse tal futuro possa me reservar.

19.  Gostaria de deixar algo especial para encerrar esta entrevista?

Gostaria de agradecer muito o teu convite, foi uma experiência muito legal. Quem quiser conhecer mais sobre o Trilho, acessa www.grupotrilho.com.br
E pra finalizar uma frase do mestre Bertolt: “De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida”. 

terça-feira, 28 de junho de 2011

ENTREVISTA FERNANDA PETIT


1 - Como foi o processo/trajetória até tu te tornares uma atriz?
O teatro entrou no peito e na vida desde pequena. Tive a sorte de ter pais e irmãos que me levavam para ver inúmeras peças na metade dos anos 80, meus olhos ficavam maravilhados e eu me empolgava com cada peça infantil que podia assistir,cada domingo era uma delícia.Ali conheci uma atriz e aos 7 anos iniciei minha primeira Oficina com Sirlei(eu não lembro sobrenome dela).Estreando no teatro Museu do Trabalho aos  7 anos .Fiquei ali experimentando coisas e me divertindo até os 9 anos e depois dando prioridade à escola e ao ballet . Voltei a fazer teatro aos 17 anos no colégio, quando um “anjo” Lya Luft me viu no palco durante uma feira do livro e disse:”Menina vá brilhar,pois você tem uma estrela dentro de você” ai resolvi ir atrás do teatro e não larguei mais a tal estrela que eu teimo em achar o brilho.   
2 - Como foi a tua formação teatral?
Quando era mais nova eu era extremamente cara de pau. Fui na “sede” do UTA pedir trabalho e de como queria fazer teatro (óbvio que não fui aceita rsrsr). Comecei a ser rata de oficina e fazia o que tinha pela frente. Iniciei o teatro com Renato Campão, fiz oficinas com Tati Cardoso, Zé da Terreira, Luis Henrique Palese (o responsável pela minha eterna paixão pelo Stravaganza), Patrícia Unyl e Biño Sauitzvy  (descentralização da cultura ,um dos projetos mais lindos que fiz parte e duas pessoas aos quais guardo os melhores conselhos),cursos no Lume(onde descobri meus mestres,pais,teatro que acredito e conheci a cidade mais calma do mundo rsrsrs),cursos no teatro Nilton Filho(onde fui acolhida e cheguei a trabalhar no teatro como “faxineira”,secretária e assim vai,lá descobri o verdadeiro respeito por um teatro e seu espaço)...Minha formação mais forte foi os 2 anos e meio e intensos na Terreira da Tribo.Fiz escola de formação e escola de teatro de rua.Lá tive meus maiores desafios,embaralhamentos,choros,entregas ,buscas e se eu sou algo no palco eu agradeço a eles:Tânia,Paulo,Clélio e todos colegas.    
3 - Dois trabalhos teus me marcaram: “Lorcabodas” e “Solos Trágicos” pela força e vitalidade que tua presença emanava em cena.  Como é o teu processo de trabalho?
Primeiramente fico feliz por ter visto Lorcabodas. Com certeza um dos trabalhos mais fortes que eu tive. Eu chego a sonhar com o processo da peça e os cheiros, gritos, a cor vermelha e o flamenco me perseguem em sonhos (um trabalho que eu gostaria de ter continuado). Meu processo?Fico me achando uma atriz diferente em cada caminho. Me mudo,me reviro,me renovo.Me acostumei com processos sofridos,de entregas loucas,de pirar no corpo,de tentar me acostumar com a palavra.Eu gosto de músicas durante processos,de trabalho corporal intenso,de conhecer novos colegas e renovar raízes com os quais já trabalhei. Eu só penso em ser verdadeira tanto no processo, como depois no palco. Uma vez um amigo meu me disse: Petit é assim (começa o processo da peça-“eba que legal”,durante processo –“ai acho que to péssima ,por que me escolheram?”, mais adiante no processo “ hum tô me encontrando”, durante o processo ,após um xingão ou conselho –“ta agora foi!” e fim do processo “estamos juntos “ e durante temporada “eu não quero que isso acabe ou eu poderia fazer isso a vida toda”.Eu sou inconstante,sensível,crio,tento ser uma boa colega,tento ser humilde e escuto,tenho um ego enorme para críticas ,mas as ouço e deixo tentar chegar ao coração,tenho enormes crises,enormes vontades de dançar ,de ser diferente em algum aspecto,me apaixono pelo que faço,deixo o  personagem me modificar de alguma maneira na vida pra melhor...meu processo é eu e a busca.Meu processo sou eu dançando numa rua vazia de camisola na chuva.
    
4 - O que tu tens assistido e que tem te provocado e o que tu tens abominado nas artes cênicas?
Gostaria de assistir mais teatro, mas sempre estou em cartaz ou ensaiando e passo a perna nos colegas prometendo que vou assisti-los. Gosto de sair do teatro inquieta,com vontade de entrar no palco onde aquele ator estava e dizer(“eu também quero fazer parte desta peça).Quero sair pensante,envolvida,rindo,chorando,tocada...   Dos últimos trabalhos que assisti , curto e indico são (Dentro e fora,Rebú,Não sobre o amor,Andy e Edie,Parasitas,Navalha na Carne,Wonderland e o que M.Jackson viu por lá,Hotel Fuck,O Amargo santo da purificação,Comédia dos erros).Durante o Porto Alegre em cena chego no êxtase ,pois acho muito legal vários tipos de linguagens,a cidade indo ao teatro e debatendo,peças de diretores importantes.Gosto muito do trabalho do grupo ESPANCA (MG),Nando Messias em Sissy,enlouquecida pela Sutil Cia e Felipe Hirsch, grupo Armazém, grupo Galpão, Cia dos atores,Pina Bausch(minha sempre inspiração),Constanza Macras e seu maravilhoso Big in  Bombay,o Lume e seu poético Shi zen 7 cuias e Café com queijo, a efemeridade de  Ariane Mnouchkine  em  Les Éphémères ,Endstation Amerika do maravilhoso  Frank Castorf  ...
Quem sou eu para dizer abomino no teatro. Acho muito chato ver a “classe”  ou  atores jovens  indo nas minhas peças ou de outros colegas com a cara amarrada, se protegendo,fechados e minados já de críticas.
Eu vou para tentar achar algo positivo, de coração aberto, penso no esforço daquelas pessoas. Então eu não gosto de teatro que não tem verdade, que atores despejam algo sem verdade nenhuma, que me enganam, que usam coisas do populacho para serem engraçados ou para aproximar com o público, atores sem vontade no palco com o tal de “não élan”, atrizes e atores preocupados em serem mitos e lindos em cena, descaso..isso sim eu abomino.
5 - Teu trabalho é reconhecido, através do público, criticas e prêmios. Duas questões: Como você vê o papel da crítica e como você recebe as premiações, se puder divida conosco os prêmios já recebidos por ti, e como estes prêmios redimensionam a tua carreira? Sabe que estou tendo meus primeiros contatos com a critica. Há poucos críticos em Porto Alegre e os poucos que viram meus trabalhos falaram bem. Mas eu me apego aos trabalhos, defendo e nem sempre é legal ler que não curtiram sua peça. A peça não sou eu, são todos juntos.
Sobre prêmios tive a sorte de ganhar 3 prêmios durante meus 10 anos de teatro.Minha primeira indicação foi como atriz infantil na peça O MACACO E A VELHA (direção de Deborah Finnochiaro). Depois ganho em 2007 meu primeiro Tibicuera pela peça A GATA BORRALHEIRA (direção: Tiago Mello) e no ano de 2010(o ano que considero de maior entrega e dificuldade financeira) recebo prêmio Brasken de melhor atriz por Solos Trágicos (direção Roberto oliveira) e Prêmio Tibicuera de melhor atriz por Ópera Monstra(direção Adriane Mottola).
Prêmios são bons para reconhecimento do seu trabalho. Prêmio é bom por que te traz alguma segurança financeira... por um certo tempo.Prêmio é bom quando a “classe”,o público torce juntamente por você.
Prêmio é ruim por que te traz aquela “obrigação” de ser boa em tudo, de surpreender sempre, fama de diva (acho isso esquisito e não é meu objetivo). Prêmios são passageiros e bem vindos. Fico feliz que todos meus prêmios (os quais guardo com carinho) foram de trabalhos em momentos super difíceis de grana, estabilidade emocional e trabalhando com gente que sempre quis trabalhar. Sou agradecida. Mais agradecida por ser uma atriz jovem que pode inspirar outros atores jovens. Que desperte a garra ,entende?      
6 - O que te faz ESCAPAR tratando-se de teatro?
Fujo do fracasso. Meu medo é fracassar como atriz, mas a gente erra.Tem escolhas,de repente não tem escolhas.
Eu estou num momento que fujo de mentira. Falsas promessas de trabalho, elogios invejosos, fofocas de mau gosto, de trabalhos com nenhum retorno pessoal e financeiro, pessoas que não sabem separar o lado pessoal do profissional. De certa maneira escapo de estar em grupos. Sou uma atriz em busca do novo, de estar bebendo de várias fontes. Não gosto de me prender em grupos, mesmo tendo vontade de estar em algum da cidade (mas isso é segredo rsrs).Fujo do que pode me atrapalhar e como isso dá medo. 
7 - O que é mais difícil para uma atriz de teatro?
Deixar o teatro. Se sustentar do teatro. Aproveitar aquele momento: o palco (sem julgamentos, sem cobranças,brincar).
8 - Como foi à experiência de trabalhar com outras linguagens como a TV, por exemplo?
Eu nunca quis fazer TV. Não me acho bonita na TV e nem fora ( e beleza conta um pouco na TV,não vamos mentir).Foram experiências ótimas,conduzidas por pessoas que me deixaram livre,improvisando e sem me inibir na câmera.
Aprendi na TV como sucesso é efêmero. Tem uma foto tua Na capa da Zero hora e 1 mês depois tu volta a ser normal.É TUDO É ÊFEMERO.Aproveito o que vem.
9 - Como você enxerga a cena gaúcha atual? O que está faltando para que o teatro gaúcho tenha uma estabilidade, qualidade e notoriedade?
Vou ser bem sincera: eu não sei. Eu estou em crise, ou de mal com a cena gaúcha. Vivo um momento lindo de dois trabalhos, mas me sinto triste como muitos atores jovens. Em busca de grana, trabalho, reconhecimento, aceitação. De mal com o pouco público, a falta de espaço na mídia, as fofocas, os editais. Então está eu sozinha pensando: o que eu quero Ser PARA A CENA GAÚCHA?QUE ATRIZ QUERO SER?O QUE QUERO DEIXAR AQUI?  
10 - Você é uma atriz que transita muito entre diferentes grupos e trabalha com diferentes diretores. Fale um pouco sobre esta relação e o que tu “rouba” de cada experiência? 
Gosto de escutar. Ficar quieta, tomar meu espaço no grupo, troco com certo acanhamento. Roubo as palavras em mesas de bar, em jantas do grupo. Roubo as vontades, o espírito de união e tento me encher do mesmo amor que o grupo tem pela peça. Quando vê sou a peça junto com os atores. Cada experiência é única. Eu não saberia te dizer em palavras, talvez pudesse por em músicas e dançaria. Cada um teria uma dança e música. Seria minha homenagem a cada um que me ensinou e me fez passar pelo palco com cada presente ou desafio. 
11 - Quais profissionais gaúchos e nacionais tu destacaria? (Ator/atriz, diretores, teóricos, etc...) 
Gosto muito do trabalho de Daniel Colin, João Madureira, Jezebel de Carli, João de Ricardo (diretores que nos deixam inquietos), o trabalho das atrizes Sandra Dani, Tânia Farias, Liane Venturela)(inspirações femininas)   e a dramaturgia de Diones Camargo .Gosto de gente do teatro como Roberto Oliveira e Adriane Mottola (sábios em palavras e conhecimento)

12 - Atualmente tu estavas em cena com dois espetáculos: “Ifigênia em Áulis + Agamenon” e “A Caofusão”. Quais são teus próximos projetos?
Não tenho projetos. Não planejo e fico aberta a novos projetos. Aquela frase: o que é meu ta guardado. Quem se habilita?
13 - Gostaria de compartilhar mais alguma idéia neste espaço?   A frase: “Que seja doce” e a palavra EFEMERIDADE.





Fernanda Petit é atriz com formação na Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo e na Escola de Teatro de Rua da Terreira da Tribo, no Grupo Experimental de Teatro de Porto Alegre, além de diversos cursos com profissionais como: Renato Ferracini, Carlos Simioni, Luiz Henrique Palese, Nilton Filho entre outros. Vencedora dos Prêmios Brasnken 2010, e dois Tibicueras - 2010 e 2007.  


Em nome do Blog “Válvula de Escape” agradeço a tua participação e te desejo sucesso em toda a sua trajetória. Um grande abraço!
Diego Ferreira – Grupo Válvula de Escape.