quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

"O PEQUENO PRÍNCIPE"


O ano nem terminou e já estamos mergulhando na obra de Antoine de Saint - Exúpery para construir o nosso próximo trabalho dedicado a todas as idades.

O INIMIGO É O OUTRO por André Susin

O inimigo é o Outro

Nos últimos dias assistimos fascinados à operação de guerra montada pelas forças policiais do Estado na tentativa de retomar o território dominado pelo narcotráfico.  O interessante é que essa caça aos bandidos veio acompanhada por uma série de justificativas morais em que as autoridades do Estado do RJ procuraram fundamentar a necessidade da intervenção militar. A mais célebre dessas declarações foi dada pelo comandante da operação que definiu a guerra contra o tráfico como a luta do Bem contra o Mal. Aqui, mobilizou-se a velha definição do Mal como a ausência do Bem, isto é, onde o Estado Democrático de Direito não encontra legitimidade, o mal (narcotráfico) prolifera. Mas e se essa definição fosse apanhada a contrapelo: o Mal não seria a sombra inominável do Bem, o seu reverso silenciado? Pensemos no conceito de Direitos Humanos – o nome do bem na modernidade; retomemos a lição de Marx sobre a lógica da sua determinação: a essência humana, onde tal conceito radica, é definida a partir da noção de cidadania burguesa; por essa razão, o Estado pode dispor arbitrariamente daqueles seres que são inumanos, excluídos do âmbito dessa noção – os que não estão incorporados no conjunto da força economicamente produtiva que gera os laços sociais regulares. Nesse sentido, o excesso inumano não integrado na noção de cidadania é a verdade dos Direitos Humanos: o narcotráfico é sua contrapartida lógica.
Isso não lembra a imagem dos traficantes correndo acuados pelo poder avassalador dos tanques? O caráter “humano” dos traficantes (e dos moradores reais das favelas alijados da cidadania, dos direitos individuais que a compõe – entrada violenta em suas casas, restrição do direito de ir e vir, etc.) desaparece no momento em os vemos em sua fuga desordenada; essa cena alimentou o desejo compartilhado de aniquilação do excesso malévolo – produzido no interior do próprio bem (e não como sua simples deturpação). Pois o que fazem os traficantes e as milícias – o “poder paralelo”; ironicamente, “paralelo” também significa “afim, análogo” – do que assumirem literalmente a violência despolitizada que subjaz os mecanismos de poder? E as favelas não são a produção do próprio Capital que exclui aqueles cuja única mercadoria vendável – sua força de trabalho – não pode ser incorporada aos seus propósitos? E as drogas não são o anverso da nossa sociedade permissiva que abole as formas sublimadas oferecendo acesso direto ao prazer? O crack é os esportes radicais dos excluídos.
O que parece permanecer silenciado na recepção entusiástica e eufórica da invasão militar é o ponto cego do Estado de Direito, aquilo que ele precisa necessariamente excluir para fundar sua soberania – a visão eufórica encobre aquilo que está nos fundamentos do Estado de Direito. O conceito de Direitos Humanos, fundado em uma suposta essência humana, se revela no seu inverso cruel e violento no momento em que nos defrontamos com a fuga alucinada e cômica dos bandidos: nesse instante os seres perdem todos as qualidades e propriedades específicas oriundas da noção de cidadania – que pertenceriam, formalmente, todo ser humano incluído na sociedade burguesa –, reduzidos à vida nua e crua, prontos para serem executados.
O paradoxo mais cruel da liberação dos morros cariocas é o de que a sociedade civil burguesa se articula para levar os direitos civis àqueles que estão incapacitados de exercê-los – pessoas que vivem à margem das relações sociais regulares de troca e de consumo. É como na cena cômica clássica em que uma socialite estúpida resolve dar um “banquete” aos famintos, com aquela mesa repleta de saladas e outros alimentos dietéticos.
Não é de maneira gratuita que a imprensa liberal burguesa procura camuflar a verdade ao insistir de maneira tão obscena sobre o caráter “humanitário” da ação – “Vejam! Agora essas pessoas têm paz, as favelas foram devolvidas a elas, liberamos os excluídos do controle exercido pelo tráfico” para caírem vítimas do Capital, devolvidas à sujeição de sua força de trabalho à instabilidade dos mercados, a empregos degradantes, à exploração e à violência. As pessoas reais do morro são Macabéas, vivendo em um limbo de impessoalidade, inspirando e expirando, sem nada mais que sua existência invisível. Mas por que a imprensa silencia sobre os interesses político-econômicos da operação de guerra (limpar o terreno para a Copa do Mundo e as Olimpíadas)? A única intrusão do real traumático em todo esse episódio foi a onda de carros queimados que aterrorizou as zonas onde as classes privilegiadas vivem, ameaçando o conforto e a segurança desses “humanos” por excelência. O resto não passou de encenação barata, assim como a imprensa auto-encena o retorno do paraíso aos favelados, buscando nos comover. Mas não é à toa que a liberdade de imprensa é a liberdade de mentir.
Por fim, só para parafrasear o subtítulo do filme “Tropa de Elite 2”: o inimigo é o Outro irredutível, aquele que encarna o excesso gerado pelos mecanismos e cálculos do Poder, o Outro sem rosto que sustenta a fantasia perversa dos Direitos Humanos a partir da qual exerce o direito de matar e de dar a vida.

André Susin -  Mestre em Filosofia/UFRGS e Graduado em Filosofia/UNISINOS. Ator e colaborador do Grupo Válvula de Escape

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NOVOS PROJETOS PARA 2011...

Memória da cena dos anos 80


Acabou de ser lançado o último livro da série MEMÓRIA DA CENA, agora com o registro dos espetáculos da década de 80!!! E o livro está disponível por meros R$5,00 na Livraria Ilhota (que agora tá funcionando nos altos do Mercado Público, entre 9h e 17h).
Pessoal, esta séria de livros sobre a memória da cena é muito importante e relevante, eu comprei os Volumes I e II que consiste um apanhado dos anos de 1990 até 1996, pois a partir de 1997 começou a ser organizado os anuários de teatro, que compreende os anos entre 97 até 2005, edição que eu tenho. Adoro ler e reler esse material, pois para quer gosta de saber sobre a história e sobre as pessoas que fizeram ou fazem parte da cena gaúcha é muito importante um material como este. 
Então, se você trabalhou em teatro ou dança na década de 80 em Porto Alegre, assistiu algum espetáculo e gostaria de lembrá-lo, ou mesmo tem curiosidade de saber o que acontecia, procure o livro Memória da Cena - 1980 - 1989, e reviva as emoções daquela época.

Lurdes Eloy, que foi quem organizou o livro, dá aqui a letra de como um dos espetáculos daquela década - o Que se passa Chê de 1982 - reverbera na sua memória:

Lembro Carlinhos Carvalho mergulhado na história do Che Guevara, escrevendo e ensaiando... Hamilton Mossmann, amigão de tantos outros espetáculos e comerciais, sempre com um humor impecável, hoje deve estar noutras instâncias contando piadas para o Carlinhos e para Bira Valdez, que apressadamente também viajou. Márcia Erig, companheira de outros espetáculos; Araci Esteves, presença segura e tranquila; Oscar Simch, um homem de perto; Marília Rossi, na época, linda e apaixonadíssima pelo Hamilton; e nós, Carlos Cunha e eu, também viajando a mil naquela história.....

Pronto, não entendeu, nem conhece ninguém? Calma, procura em outra página, quem sabe
Bailei na Curva, de 1983? Sim, de 1983!

sábado, 25 de dezembro de 2010

PRESENTES CULTURAIS!

Pessoal, neste natal fiquei muito feliz, pois sabemos que o Natal se transformou numa grande máquina comercial, onde todos correm para presentear, esperam receber algo em troca, enfim. Mas neste ano recebi presentes muito bacanas e culturais e gostaria de compartilhar com vocês:
Ganhei este belo presente, a biografia de Clarice Lispector do meu elenco do Grupo Válvula de Escape, e fiquei bastante emocionado, pois o Beijamin Moser esteve em Porto Alegre na Feira do Livro no lançamento do livro. Obrigado a Maura, André, Ana,Tuane, Léo, Elton, Martina pelo presentaço!
Bom, outro presente que eu adorei, veio das mãos da minha querida e amada esposa Daiane e do meu filhão Matheus, um box do Pedro Almodóvar, com cinco títulos de sua cinebiografia, são eles: "Carne Trêmula", "Fale com ela", "Tudo sobre minha mãe", "Má Educação" e "Volver". Simplesmente maravilhoso, vou começar a assistir e rever alguns filmes hoje mesmo. Amor te amo!
Bom, ganhei mais um livro do meu amigo secreto, meu companheiro do Válvula Leonardo Nunes, ganhei o título "A arte da guerra" de Shun Tzu. Fazia tempo que queria comprar este livro e adorei. Valeu!!!
E para finalizar os presentes, ganhei da minha amiga Fernanda Sturmer (agora funcionária do Estado, do Teatro de Arena), o filme "Piaf: um hino ao amor". Já tinha assistido, mas tê-lo em casa é fantástico. Adorei este filme, maravilhoso!!!

Obrigado a todos amigos e familiares pelos maravilhosos presentes! 2011 cheio de leituras e filmes para assistir, além de outros títulos de leituras como "Esperando Godot" e "Fim de Partida" de Beckett, "Um negócio fracassado" de Anton Tchékhov, e mais sete livros que comprei na Feira do Livro, e mais o livro sobre o teatro de rua que ganhei do meu amigo Jessé Oliveira. 

Feliz Natal a todos!




sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL!!!

Abraços a todos nossos amigos blogueiros que em 2011 possamos continuar trocando informações sobre arte e cultura. 
Abraços do Válvula de Escape

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Porto Verão Alegre 2011!



Evento conseguiu incentivo da Lei Rouanet pela primeira vez




Celebrando 12 anos, o Porto Verão Alegre (PVA) tem a proposta de fomentar o teatro e reunir ao público os espetáculos realizados em Porto Alegre e no Estado. Para este ano não há estreias "mas ao mesmo tempo contamos com espetáculos de qualidade superior. O ano de 2010 foi de muita estreia no teatro gaúcho, e as peças se fazem presente agora reunidas no Porto Verão", comenta Rogério Beretta, coordenador do projeto ao lado de Zé Victor Castiel.
Historicamente fomentado pelo patrocínio direto de empresas, o PVA pela primeira vez contou com o incentivo da Lei Rouanet, o que permitirá o pagamento de cachê para alguns espetáculos, segundo Beretta. Os demais grupos continuam contando com a bilheteria, já que os patrocínios são suficientes apenas para os custos de produção e organização do evento. "Tivemos 100% da lei aprovada, mas conseguimos captar cerca de 20%, para a próxima edição, desejamos pagar cachê a todos", afirma Beretta.
O Porto Verão Alegre oferecerá 67 espetáculos em 11 salas de teatro da Capital, além de trazer atrações musicais (rádio Buzina), cinema (cinema e psicanálise e mostra de histórias curtas) e artes plásticas (terça alegre). 
Os ingressos antecipados estão a venda por R$ 15,00 em dois postos de venda: no Ponto Especial Net do DC Shopping, loja 133, de segunda a sexta das 13h às 19h e na Praça das Artes do Praia de Belas Shopping, de segunda a sábado das 10h às 22h. A programação completa pode ser conferida no Site do Porto Verão Alegre .



De 11 de Janeiro a 13 de Fevereiro

*Programação sujeita à alteração.
TEATRO DA AMRIGS - 21h
Jair Kobe – 11 a 13/01 | 25 a 27/01
La Magia Del Tango – 14 a 16/01
Homens de Perto – 20 a 23/01
Iotti – 28 a 30/01
Primeiro as Damas - 31/01 a 02/02 | 07 a 09/02
Homens de Perto 2 – 03 a 06/02
Paulinho Mixaria – 10 a 13/02

TEATRO NOVO DC - 21h
Inimigas Íntimas – 20 a 23/01
Se Meu Ponto G Falasse – 27 a 30/01
Kronnus – 03 a 06/02
Bailei na Curva – 10 a 13/02
Programação Infantil: Dias 16, 23 e 30/01, às 17h.

TEATRO RENASCENÇA - 21h
Sexo Mentiras e Gargalhadas – 11 a 20/01
Como Emagrecer Fazendo Sexo – 14 a 16/01
Adolescer - 21 a 23/01
Victor Culanys (Show Música) – 25/01
Sobre Saltos de Scarpin – 26 e 27/01
O Bordel das Irmãs Metralha - 28 a 30/01
Manual Pratico da Mulher Moderna – 04 a 06/02
O Avarento – 08 a 10/02
O que os Homens Pensam que as Mulheres Pensam – 11 a 13/02

TEATRO BRUNO KIEFER - 21h
Solteiríssima – 13 a 16/01
Pois é, Vizinha – 18 a 21/01
Caminhos que Cruzei, Amigos que Encontrei – 22 e 23/01
Quanto Vale ou é Por Quilo? - 28 a 30/01
Roda Gigante – 01 a 03/01
A Milímetros de Mercúrio - 04 a 06/02
O Segredo Intimo dos Homens – 08 e 09/02
Como Agarrar um Marido Antes dos 40 – 10 a 13/02

TEATRO DE CÂMARA TÚLIO PIVA - 21h
Larissa não Mora mais Aqui - 11 a 19/01
Como Enlouquecer sua Alma Gêmea – 13 a 16/01
Cama de Casal – 20 a 23/01
Sobre Anjos e Grilos – 25 a 27/01
Desvario – 28 a 30/01
Isaias in Tese - 01 e 02/02
Mães e Sogras – 03 a 06/02
A Doce Bárbara - 10 a 13/02

SALA CARLOS CARVALHO - 21h
Monstras S/A – 11 a 13/01
Woody e as Mulheres Neuróticas -14 a 16/01
Prazer – 18 e 19/01
O Urso – 20 a 23/01
O Mágico Que Saiu do Armário - 28 a 30/01
Fora do Ar – 01 a 03/02
A Encalhada – 04 a 06/02
A Claudinha Esta Lá Fora – 08 a 10/02
Dona Gorda – 11 a 13/02

SALA ÁLVARO MOREYRA - 21h
Uma Vovó do Além – 11 e 12/01
Dez (Quase) Amores - 13 a 16/01
Os Poetas – 18 e 19/01
A Comédia dos Erros – 20 a 23/01
9 Mentiras sobre a Verdade – 25 e 26/01 | 01 e 02/02
Esta Noite se Improvisa – 27 a 30/01
Show de Calouros - 03 a 06/02
Pigmalião – 11 a 13/02

TEATRO DE ARENA - 21h
A Lição – 11 a 16/01
O Abajur Lilas – 21 a 23/01
Cale-se – 04 a 06/02
Goela Abaixo – 08 a 13/02

TEATRO HEBRAICA - 21h
Namorado? Eu tinha um... - 19 a 23/01

OUTRAS APRESENTAÇÕES
Usina do Gasômetro - 21h
Viva Água Viva - 11 a 13/01
Pode ser que seja só o Leiteiro lá fora - 14 a 23/01
Apareceu a Margarida - 25 a 27/01
O Corpo Visível "entre" Espelhos - 28 a 30/01

Segundas Literárias - Livraria Saraiva P. Belas - 19h30min

Alcy Cheuiuche e Luís Augusto Fischer - 17.01
Iotti, Uberti e Santiago - 24.01
Paula Taitelbaum, Claudia Tajes e Martha Medeiros - 31.01
David Coimbra e Thedy Corrêa - 07.02

Terça Alegre no Museu Iberê
11, 18 e 25/01 e 01, 08 e 15/02

Quartas no Praia de Belas - 19h
Jair Kobe - 19/01
Inimigas Intimas - 26/01
Como Agarrar Um Marido Antes dos 40 - 09/02
Encerramento: Homens de Perto 2 - 16/02

Cine SIG - Fundação Sigmund Freud

DC Shopping - Vídeos RBS

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

30 anos sem NELSON RODRIGUES

Hoje, 21/12 faz exatamente 30 anos que o nosso "anjo pornográfico" partiu para outra. Nelson Rodrigues faleceu dia 21 de dezembro de 1980 e deixou uma obra magnífica. Apaixonado por futebol, torcia pelo Fluminense, time campeão de 2010, e que com certeza deixou o Nelson vibrante lá no andar de cima. Eu sou afixionado pela obra de Nelson Rodrigues, e minha querida e amada esposa, me presenteou anos atrás com sua biografia, escrita pelo Ruy Castro. (Ontem ganhei outra biografia, agora a da Clarice Lispector, de Beijamin Moser). 
A primeira peça foi "A mulher sem pecado", mas o sucesso veio com "Vestido de Noiva", marco do teatro brasileiro moderno, uma verdadeira revolução jamais vista nos palcos tupiniquins. Lógico que o encenador teve seus méritos, mas é inegável que o Nelson foi o grande responsável pela introdução do novo teatro brasileiro.  Minha peça preferida: TODAS, mas se tivesse que escolher uma ficaria muito dificil, então escolho duas: "Perdoa-me por me traíres" e "Toda nudez será castigada".
Fica a nossa lembrança e homenagem ao grande Nelson. Em breve postaremos um novo texto, mais profundo sobre este autor.
Saudades!!!

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico(desde menino)". Nelson Rodrigues

BLOG EM FESTA: 1 ANO DO BLOG VÁLVULA DE ESCAPE

Pessoal que acompanha este blog, gostaria de dividir a passagem de 1 ano que este blog está no ar, contribuindo para a disseminação da arte e para divulgação dos trabalhos do Grupo Válvula de Escape. A 1[ postagem foi publicada no dia 19 de dezembro de 2009, logo após a entrega da minha monografia da Graduação da Uergs, então precisava de uma válvula para escapar, e eis que surgiu este blog. Agradeço a todos os leitores e ano que vem tem novidades. Aguardem!!!
Parabéns ao Válvula de Escape.

PENSAMENTOS PARA ESCAPAR

 " ... Para os Hindus o mundo é sustentado por um elefante, mas o elefante se acha apoiado em cima de uma tartaruga. Inventar, deve-se admitir humildemente, não consiste em criar algo do nada, mas sim do caos; em primeiro lugar, deve-se dispor dos materiais; pode-se dar forma à substância negra e informe, mas não se pode fazer aparecer a própria substância.Em tudo o que se refere às descobertas e às invenções, mesmo aquelas que pertencem à imaginação, lembramo-nos continuamente da história do ovo de Colombo.                                              A invenção consiste na capacidade de julgar um objeto e no poder de moldar e arrumar idéias sugeridas por ele."

Introdução da escritora Mary Shelley, sobre a criação de Franskenstein.

"ÓI NÓIS AQUI TRAVEIZ" a um passo da NOVA TERREIRA DA TRIBO

Centro Cultural Terreira da Tribo


Depois demasiadas lutas, parece que está chegando ao final a novela que estava tornando-se a apropriação do território cultural do pessoal do "Ói nóis", mais de trinta anos pagando aluguéis, sendo despejados e passando por muitas lutas, parece que enfim o principal centro de formação e criação em teatro do Estado e um dos principais do Brasil, ganhará sua sede definitiva. está é uma boa notícia que deve ser comemorada! 

A Prefeitura de Porto Alegre garantiu junto ao Ministério da Cultura a verba orçamentária para a construção do Centro Cultural Terreira da Tribo. Essa semana foi empenhado o recurso de um milhão e trezentos mil reais referente à totalidade das emendas dos parlamentares gaúchos. Foram sete emendas dos deputados federais Vieira da Cunha, Maria do Rosário, Mendes Ribeiro Filho, Luciana Genro, Nelson Proença, Germano Bonow e do senador Sérgio Zambiasi. Foi decisivo para a efetiva liberação da verba o empenho do Ministro da Cultura Juca Ferreira e do Prefeito José Fortunati, que teve Caco Coelho, o mais empolgado dos parceiros deste sonho, como consultor.
A medida atende a deliberação aprovada pelo Orçamento Participativo, durante três anos consecutivos ao final da década de 1990, em que a comunidade manifestou seu desejo de destinar um lugar definitivo para abrigar a Terreira da Tribo – Centro de Experimentação e Pesquisa Cênica e Escola de Teatro Popular.


Todas as grandes cidades brasileiras têm, como um símbolo teatral, uma ou mais companhias realizando seu trabalho continuado em sedes próprias, ou pertencentes ao Estado, mas geridas pelas companhias. Assim é em São Paulo, com o Teatro Oficina, que pertence ao estado, mas que é impensável sem Zé Celso a dirigi-lo. Em Belo Horizonte, o Grupo Galpão, entidade reconhecida por todos os mineiros, com incentivo das empresas locais, mantém o centro de cultura e teatro Galpão Cine Horto. Em Salvador, o grupo Bando de Teatro Olodum se transformou numa referência mundial, após ser consolidado em sua sede definitiva. No Rio, o Tá na Rua segue seu trabalho exemplar, liderados pelo seu regente Amir Haddad.
Em março de 2008, ao completar trinta anos de existência, em pleno desenvolvimento do seu trabalho, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz conquistou junto ao poder público municipal o terreno na Rua João Alfredo nº 709, bairro Cidade Baixa, cedido por comodato para construção de sua sede definitiva. O Projeto prevê, além do espaço para pesquisa teatral que é própria da Tribo, salas de aula, biblioteca e Centro de Referência do Teatro Popular, sala de exposição, sala de projeção e local para o Acervo da Terreira da Tribo.

Sonho que se sonha junto é realidade!

Contato:
Paula Carvalho
paula.terreira@gmail.com
(51)8417 93 10


Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
oinois@terra.com.br
(51)3286 57 20 – 9999 45 70


domingo, 19 de dezembro de 2010

DESTAQUES DO TEATRO (2001-2010) REVISTA CULT

Gostaria de compartilhar com vocês, uma lista onde alguns especialistas elegeram, segundo as suas opiniões, os espetáculos mais expressivos da década, entre 2001-2010. A lista foi publicada na Revista Cult do mês de dezembro e segue abaixo. Os especialistas que elegeram os espetáculos são: Beth Néspoli, Fábio Priladnicki, Kill Abreu e Mauro Fernando.
Como cada espectador ou especialista tem o seu gosto ou preferencias não cabe contestar as escolhas pessoais, mas concordo com vários espetáculos citados e merecidos a serem citados em listas como esta, como: Ensaio. Hamleth, Os Sertões, Regurgitofagia, Aos que virão depois de Nós - Kassandra in process,   Toda Nudez Será Castigada (Armazém Cia. de Teatro), Otelo (Folias da Arte). 
Mas sinto falta de alguns espetáculos memoráveis que merecem destaque  como: "Aldeotas" de Gero Camilo, "Partido" do Grupo Galpão, "Pobre Super-Homem" de Sérgio Ferrara,  "Café com Queijo" do Lume, "os grupos "Teatro da Vertigem", "CPT", e Galpão. Mas escolhas e gosto não se discutem. Portanto dentro de alguns dias lançarei também a minha lista, ou seja, um apanhado dos mais de 300 espetáculos que já assisti, vou tentar sintetizar uma lista dos mais expressivos da década. 


Especialistas selecionam os destaques do teatro nacional na última década
ENSAIO.HAMLETH Cia. dos Atores
BETH NÉSPOLI
crítica de teatro
BR-3 (2006), Teatro da Vertigem, direção de Antonio Araújo
Pela potência dessa obra híbrida capaz de “des-velar” ao espectador o recalcado, o lixo, o resíduo que se quer invisível, mas cuja presença pode ser seguida à deriva por rios, periferias e seitas. Por essa trajetória errante somos conduzidos nesta encenação impactante, realizada dentro de barcos e às margens do Rio Tietê (SP), num percurso de 4 quilômetros, e na Baía de Guanabara (RJ).

Agreste (2004), Márcio Aurélio
Há uma rara convergência de qualidades nesta encenação. Os procedimentos de desdramatização (exploração da sonoridade textual em lugar do sentido imediato) e de desestabilização da recepção (movimentos coreografados, imobilidade total, estranhamento nos figurinos) buscados pelo diretor Márcio Aurélio contribuíram para ressaltar a contundente poesia deste texto de Newton Moreno, um dos mais talentosos dramaturgos da geração surgida na década de 1990.

Ensaio.Hamlet (2004), Cia. dos Atores, direção de Enrique Díaz
Um espetáculo que consegue transformar a “reflexão” sobre um texto em cena vibrante e atraente. O ensaio do título, nesta encenação de Enrique Díaz com a Cia. dos Atores, não significa só a preparação que antecede a estreia, mas também o ensaio no sentido de pensamento sobre, de dissecação teórica.


Os Sertões (2002), Teatro Oficina, direção de José Celso Martinez Corrêa



Ao baixar no terreiro eletrônico do Oficina, o ensaio de Euclides da Cunha sobre o massacre de Canudos transforma-se em exuberante transposição cênico-musical, cinco espetáculos num total de 18 horas, e atrai um público jovem que “refaz e atualiza” com os atores do Uzyna Uzona a gradual “descoberta” do Brasil profundo realizada pelo autor desse livro relevante e lido por poucos.



FÁBIO PRILADNICKI 

jornalista e crítico de teatro do jornal Zero Hora

 Kassandra in Process

In Surto (2001), Falos & Stercus, direção de Marcelo Restori
Mesclando teatro, dança e circo, sem medo de rótulos, a companhia é uma das mais inovadoras do país. Este espetáculo, em que empregam a técnica do rapel e tratam da questão da loucura, faz parte de um conjunto de projetos mais individuais dos integrantes, embora em coerência com a proposta coletiva de que ação e texto são indissociáveis.

Regurgitofagia (2004), Michel Melamed
Uma ideia engenhosa: e se o performer levar um choque cada vez que o público se manifestar ruidosamente? E se o espetáculo for inteligentemente divertido, reescrevendo a ideia da antropofagia na era dos excessos (agora é preciso vomitar)? Ninguém vai se importar se não for exatamente “teatral” esse conceito escorregadio.

Aos que Virão Depois de Nós – Kassandra in Process (2002), Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz
Há 32 anos, o grupo aposta em um projeto estético-político que se realiza aqui na plenitude, por meio do que eles chamam de teatro de vivência. Percorrendo ambientes, apurando o olfato, bebendo das mãos dos “atuadores” (como se autointitulam), o público experimenta uma releitura do mito grego atualizada aos novos tempos de guerra.

Toda Nudez Será Castigada (2005), Armazém Cia. de Teatro, direção de Paulo de Moraes
Com soluções cênicas surpreendentes, a companhia londrinense radicada no Rio, dirigida por Paulo de Moraes, realiza uma montagem que não se verga ao peso do clássico moderno de Nelson Rodrigues. A criatividade do trabalho do grupo culminaria no tocante espetáculo Inveja dos Anjos (2008), com dramaturgia própria.

Não sobre o Amor (2008), Sutil Cia. de Teatro, direção de Felipe Hirsch
Se fosse preciso escolher apenas uma qualidade da parceria entre Felipe Hirsch e Daniela Thomas, seria a capacidade de deslumbrar o público com um teatro de imagens sem abrir mão da palavra. Neste espetáculo de câmara, as características da companhia estão compactadas, como se visto por um binóculo ao contrário.

KIL ABREU 

jornalista ecrítico de teatro
Os Sertões
Os Sertões (2002), Teatro Oficina, direção de José Celso Martinez Corrêa

Zé Celso Martinez é provavelmente um dos artistas com trajetória mais longa e importante entre aqueles que surgiram ainda no seio do nosso modernismo. E esta leitura iluminada de Euclides da Cunha foi um fenômeno de invenção que dificilmente se repetirá com a mesma potência nos próximos anos. O que o Oficina Uzyna Uzona arquiteta ali é uma síntese histórica inquieta, que faz o passado refluir e provocar o presente, em um espetáculo de incrível vitalidade.

Visões Siamesas (2004), Cia. do Latão, direção de Sérgio de Carvalho
A companhia está entre os grupos mais produtivos na linha do teatro político no Brasil. E este espetáculo já revelava uma questão central, que viria a se confirmar nos anos seguintes: sem poder contar com as coordenadas tradicionais que sustentavam a cena engajada – já neutralizadas –, e diante da necessidade de reinventar os procedimentos de um teatro crítico não meramente ideológico, seria preciso lançar-se à experimentação. E este é um dos mais experimentais da companhia. Ensaio.Hamlet (2004), cia. dos atores, direção de enrique díazEntre outros espetáculos excelentes da companhia carioca, este é o que sinaliza com melhor resultado alguns procedimentos performáticos que envolvem a representação. Entre eles o de suspender o representado para expor o próprio processo de construção das cenas. No caso, fazendo um cruzamento entre a história de Shakespeare e a dos próprios atores enquanto atuam. Um tipo de estratégia que com a companhia é afirmação inteligente de um jogo com as convenções do teatro, sem perder de vista a necessidade de atuações sustentadas e a direção inventiva que notabilizou o grupo.

Por Elise (2004), Grupo Espanca, direção de Grace Passô
O primeiro e provavelmente o mais bonito espetáculo do jovem grupo mineiro Espanca. São quadros cotidianos, cenas da vida ordinária. Usando a permissividade do teatro contemporâneo, misturada a influências de Brecht e uma afinada sensibilidade poética, a dramaturga e diretora Grace Passô levantou, com base em histórias comuns, um dos espetáculos mais singelos e comoventes dos últimos anos.

MAURO FERNANDO 

membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)

Otelo


Os Sertões (2002), Teatro Oficina, direção de José Celso Martinez Corrêa
Baseadas na obra de Euclides da Cunha, as cinco partes que compõem Os Sertões escoram-se na cultura popular, multifacetada. E edificam em 27 horas um tonitruante painel que aborda as relações entre oprimidos e opressores de todos os matizes, do econômico ao cultural. Teatro dionisíaco, fértil, transcendente, singular, de resistência ao mercadão das artes.

Otelo (2003), Grupo Folias D’Arte, direção de Marco Antonio Rodrigues
As relações entre metrópole e colônia, entre classe dominante e povo, e o papel de um líder nesses embates elevam esta montagem do texto shakespeariano a um patamar bem superior ao da tríade ciúme-inveja-vingança, ao do senso comum. As soluções cênicas criativas e a inclinação brechtiana da direção dão o tom contemporâneo do espetáculo.

BR-3 (2006), Teatro da Vertigem, direção de Antonio Araújo
Dramaturgia de Bernardo Carvalho, invenção cênica – sobre as águas do Rio Tietê – ousada e grandiloquente que esmiúça a identidade de uma nação profunda. Uma experiência teatral intensa e radical. Ao mesmo tempo, um aprofundamento na questão do espaço cênico – o palco tradicional responde plenamente ao teatro do século 21?

Aquidentro/Aquifora (2009), Opovoempé, direção de Cristiane Zuan Esteves
Dois espetáculos conjugados com cinco atrizes-criadoras e dramaturgia assinada pela diretora, de uma sutileza vibrante e uma delicadeza desconcertante, em dois momentos – uma viagem pelo centro paulistano e um palco não convencional. Um convite a um olhar diferenciado sobre a cidade e, portanto, sobre os costumes da população (Aquifora), e sobre si próprio (Aquidentro). Uma sugestão para as dores da civilização.

Quem Não Sabe Mais Quem É, o que É e Onde Está Precisa se Mexer (2009), Cia. São Jorge de Variedades, direção de Georgette Fadel
Bem-humorada e irreverente peça em rara sintonia com premissas do teatro pós-dramático – rompimento com a postura passiva do público, oposição à sociedade de consumo. Uma discussão sobre a utopia inspirada na obra de Heiner Müller, com dramaturgia da própria companhia. Uma provocação de caráter anárquico, com cenas na rua e na sede do grupo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

VENCEDORES DO PRÊMIO AÇORIANOS E TIBICUERA 2010

Daniel Colin e os Sarcáusticos.

E foram entregues ontem os Prêmios Açorianos de Teatro e Dança e o Prêmio Tibicuera de Teatro Infantil. Gostaria de parabenizar o pessoal do Teatro Sarcáustico, grande vencedor do Prêmio, comprovando a força do teatro de grupo na capital e a todos os premiados, em especial ao Marcelo Burgarelli, nosso amigo e colega de formação na Uergs de alguns integrantes do Válvula de Escape. Abaixo a lista de todos os vencedores.


TEATRO
EspetáculoWonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá
Direção
Daniel Colin (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Ator
Marcelo Bulgarelli (Dia Desmanchado)
AtrizVanise Carneiro por (9 Mentiras sobre a Verdade)
Ator coadjuvante
Eduardo Mendonça (Milkshakespeare)
Atriz coadjuvanteRenata de Lélis (Milkshakespeare)
Figurino
Daniel Lion (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Cenografia
Luiz Marasca (Hybris)
Iluminação
Bathista Freire (Sobre Saltos de Scarpin)
Trilha
Jackson Zambelli e Sérgio Olivé (Dia Desmanchado)
Dramaturgia
Patrícia Fagundes e grupo (Clube do Fracasso)
ProduçãoRodrigo Marquez, Fernanda Marques e Palco Aberto (Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá)
Troféu RBS Cultura – Júri PopularClube do Fracasso
***
DANÇA
Espetáculo
Dar Carne à Memória II
Coreografia
Eva Schul (Dar Carne à Memória II)
Bailarino
Mariano Neto (Pessoas – As Memórias)
Bailarina
Didi Pedone (Pessoas – As Memórias)
Figurino
Ateliê Alfa (Pessoas – As Memórias)
Iuminação
Lucca Simas (Na Solidão)
Trilha sonora
Ivan Motta (Pessoas – As Memórias)
Produção
Jerri Dias (Dar Carne à Memória I e II)
Troféu RBS Cultura – Júri PopularPessoas – As Memórias
***
TEATRO INFANTIL
EspetáculoO Menino que Aprendeu Cedo Demais
Direção
Adriane Mottola (Ópera Monstra)
Ator
Pablo Capalonga (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)

Atriz

Fernanda Petit (Ópera Monstra)
Ator coadjuvante
Leonardo Barison (Criança Pensa)
Atriz coadjuvante
Janaina Pelizzon (Ópera Monstra)
Figurino
Cássio Brasil (Ópera Monstra)
Cenografia
Claudio Benevenga e Marcos Buffon (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Iluminação
Nara Maia (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Trilha
Arthur Barbosa (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Dramaturgia
Roberto Oliveira (A Roupa Nova do Rei)
Produção
Airton de Oliveira e Maura Sobrosa (O Menino que Aprendeu Cedo Demais)
Troféu RBS Cultura – Júri Popular
Ópera Monstra

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

OLHAR (es) DA CENA por OSCAR BESSI FILHO

Um Espetáculo ao Pé da Letra
Assovio no Vento Escuro - Foto de Cássia Cruz

Eu saí boquiaberto do espetáculo Assovio no Vento Escuro, do Grupo Válvula de Escape. Pasmo. Confesso que foi tudo acima do esperado. O ambiente – os porões da Estação da Cultura, em Montenegro – o jogo de luzes e sons, o desempenho dos atores, a sinergia da peça. Pouco entendo de teatro, só sei o suficiente para ser um espectador atento e, numa ousadia maior, até crítico. Como todo brasileiro que é crítico de futebol. Falando por falar. Mas conheço a obra de Clarice Lispector, fundamentalmente o livro em que se baseia a peça, A Hora da Estrela. Uma obra complexa, difícil de ser adaptada fora da literatura, mas rica em conceitos e conteúdos. Pois a trupe de Diego Ferreira conseguiu tudo isto. E ir além. Não perdeu o foco, a essência, a mensagem, e talvez tenha dito até mais. Algo quase metafísico. O elenco arrasa, sem exceção. Ana Denise Ulrich cativa, faz rir e seduz. É ótima, impecável, convincente. Gabriela Tuane Tain Bessi – sou suspeito para falar, é minha filha, e eu chorei ao vê-la em cena - e Martina Nichel – que eu já sabia escrever muito bem desde novinha, nem desconfiava deste seu calibre como atriz – são a Macabéia do livro. Sem tirar nem por. Impressionante. Em gestos, falas e olhares, transmitem a inocência perdida de si mesma, o sonho ingênuo, o deslumbramento, a fantasia despudorada da personagem. Emocionam a cada cena. Enternecem e fazem rir. Leonardo Nunes é fantástico, o namorado ideal a ser visualizado na leitura. Seria melhor conhecê-lo e, só depois, ler o livro. Lucimaura Rodrigues dispensa comentários. É atriz maiúscula, é autora, personagem e Glória ao natural. Muitas Lucimauras em cena. A trilha sonora ao vivo de Elton Ambrozí dá o tom essencial ao que se mostra. Seu baixo é coração que bate, é tensão, é mistério e tempero. André Susin é a batuta filosófica e muito mais. Enfim, fico sem argumentos pelo medo de ser piegas, justamente, talvez, por ser mero espectador. Mas a direção de Diego Ferreira é genial no detalhe, na oficina que selecionou atores, no charme da divulgação, na genialidade das cenas, no roteiro que resume sem perder um ponto fundamental sequer, na sacada dos jogos de sons e luzes e dos lugares. A interatividade com o público, somada a essa coisa de que Clarice Lispector mostra, desnuda, nossos porões. Assovio no Vento Escuro é pura alma. É espetáculo de primeira grandeza, ao pé da letra. Como, ao pé da letra, é totalmente Clarice Lispector. Que os ventos nos tragam seus novos assovios, pois Válvula de Escape definitivamente é, sem dúvida, a melhor referência para uma parada e reflexão.

Oscar Bessi Filho é Escritor e Cap. da Brigada Militar. 

Oscar Bessi Filho - 
Cap QOEM - Cmt 1ªCia  - 27 BPM/CRPO-VC
BM de São Sebastião do Caí, Bom Princípio, São José do Hortênsio, Tupandi e Harmonia
(51) 9768-8807 / (51) 3635-1220 - Página oficial do escritor em - 
www.oscarbessi.com.br 
Quintas, JORNAL IBIÁ - Sábados, TV CULTURA - Domingos, CORREIO DO POVO

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ASSOVIO NO VENTO ESCURO segue em temporada

Amanhã, segue a temporada do nosso espetáculo "ASSOVIO NO VENTO ESCURO" as 20h na Estação da Cultura. Realizamos três apresentações, na sexta, sábado e domingo e a cada dia, percebemos que o público tem gostado muito do nosso trabalho, principalmente através das manifestações após espetáculo, no debate final. O espetáculo está tocando muito o público seja através da interpretação dos atores, do espaço e do maravilhoso texto de Lispector. Amanhã seguimos a temporada que segue nos dias 14,15,16 e 18 sempre as 20h na Estação. Os ingressos já estão esgotados para todas as sessões, mas estamos conseguindo disponibilizar sempre 5 ingressos extras por noite. Na apresentação de domingo aplaudo o elenco pela garra, que mesmo com chuva decidiram por realizar o espetáculo na área externa, para que o público pudesse assistir ao espetáculo na integra. Espero que nas próximas a chuva não atrapalhe o nosso trabalho. Mas domingo foi uma benção.
Não percam, "ASSOVIO NO VENTO ESCURO" em sua última semana.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SESC anuncia atrações teatrais de 2011


Em 2010, mais de 338 mil pessoas assistiram a espetáculos de teatro promovidos pelo Arte Sesc no Rio Grande do Sul. O público de música somou mais de 250 mil espectadores. Há ainda as atrações de literatura, cinema e artes visuais. Para 2011, a expectativa é que os números cresçam em 20%, conforme a diretoria. Mas o objetivo principal, segundo a vice-presidente do Sistema Fecomércio-RS, Maria Cecília Pozza, é democratizar e disseminar a produção artística com a proposta de formar plateias. "E com isso desenvolver senso crítico e sensibilidade. Assim desenvolvemos a cidadania", declara.
Para 2011 estão confirmadas diversas atrações de artistas e grupos conceituados, o que deixa o bom sabor cultural do Ano-Novo assegurado. Do teatro carioca circularão pelo estado "O Matador de Santas", com direção de Guilherme Leme; "O Dragão", da Cia Amok e "Descoberta das Américas", da Leões de Circo. As aclamadas produções gaúchas "Larvárias", da Cia do Giro, e "A Megera Domada" também retornam aos palcos ano que vem. Ainda estão confirmadas as peças "Jogos de Inventar, Cantar e Dançar", do Bando de Brincantes; "O Draguinho", do Grupo Etc&Tal e "Histórias de uma Mala Só", de Vinícius Petry. Integrarão o Circuito Palco Giratório, além de "O Dragão", "Concertos de Ispinho e Fulô", da paulista Cia do Tijolo; "Cabanagem", do Corpo de Dança do Amazonas e "O Evangelho Segundo São Mateus", do Grupo Delírio Cia de Teatro, originário do Paraná.
Para o 6º Festival Palco Giratório, que ocorrerá nos 30 dias de maio, são esperados "Não Sobre o Amor", da Cia Sutil, com direção de Felipe Hirsch; "História de Amor" (últimos capítulos) do Teatro da Vertigem, "O Terceiro Sinal", da Cia Br 116, de São Paulo; "O Mundo Tá Virado", do Imbuaça, do Rio Grande do Norte; "No Pirex", dos mineiros da Ammatrux e "Acorda Zé e Quiprocó", do Moitará.

Fonte: Correio do Povo

domingo, 12 de dezembro de 2010

ELZA SOARES - Ousadia e Potência Vocal no Planeta da fome.


O popular “quem canta seus males espanta” só é clichê porque realmente faz sentido. Em se tratando de Elza Soares, então, o dito resume milimetricamente a vida da artista.  Menina pobre criada em uma favela carioca, aos 12 anos deixou a ingenuidade pueril para trás ao casar-se pela primeira vez. Aos 13 anos já era mãe. E foi para salvar a vida do filho que a “pretinha desnutrida” - como ela mesma se via na época - encarou uma plateia que caiu em risos ao ver a garota magrinha enrolada em trapos fazendo as vezes das roupas e rebateu o músico e apresentador Ary Barroso, que indelicadamente questionou de que planeta Elza havia chegado: “Do mesmo planeta que o senhor, o planeta fome”, desconcertou a futura cantora.
A apresentação no show de calouros lhe rendeu muito mais que a nota máxima e dinheiro. A voz rouca que encantou o público mostrou a força da cantora - que, como se não bastasse, ainda teve que improvisar, pois a banda executou a canção em um tom acima do que havia sido ensaiado. Ela saiu do programa de rádio fadada a ser estrela.
Logo que começou a cantar na televisão, médicos e especialistas instigados com a voz que saía daquela garganta realizaram diversos estudos e sentenciaram: apenas mais três meses de potência vocal. Felizmente eles estavam errados. Focar a voz da cantora é o que faz o documentário Elza, que estreia nesta terça no Cine Bancários (General Câmara, 424) com sessões diárias de terça a domingo: às 15h, 17h e 19h.
Dirigido por Izabel Jaguaribe e Ernesto Baldan, o filme mostra a Elza artista, sem prender-se em questões pessoais que já foram tão debatidas na sociedade. “Achamos que era importante retratá-la musicalmente, ressaltar o talento. Em relação à vida privada abordamos alguma coisa para dar um contexto de quem ela é, mas não era ao nosso foco. Não fizemos o filme porque ela é a Elza da revista de fofoca. Fizemos porque ela é uma intérprete que achamos inigualável e que tem uma força muito grande dentro da música brasileira”, explica Izabel.
Produzido durante um ano, o documentário traz depoimentos de pessoas ligadas à carreira de Elza. Elton Medeiros, Hermano Vianna, João de Aquino, José Miguel Wisnik, Mart’nália, Professor Júlio (Xangô do Salgueiro), Roberto Silva e Vó Maria comentam toda a trajetória e relevância da artista. Somam-se a eles Caetano Veloso, Maria Bethânia, Paulinho da Viola e Jorge Ben Jor que, além de falar, apresentam canções com a própria cantora que foram fundamentais em seu caminho. “Foram uma maravilha esses encontros, a gente se ama muito. Além de amor existe um respeito muito grande de amizade entre nós. Foi muito bom”, conta Elza Soares sobre as gravações.
Acompanhando uma tendência do cinema nacional em resgatar artistas importantes do País e levar suas histórias para a tela, Elza se difere do ponto de vista da concepção. De acordo com a diretora, o conceito de trazer um cenário pensado onde ocorrem os depoimentos e os encontros com a cantora é a grande ousadia do filme, o que imprimiu uma ideia autoral à produção. “Achamos interessante fazer algo em que tivéssemos mais recursos para administrar, no sentido da direção de arte e fotografia. Esse conceito de criar um ambiente que você tem um controle da luz, da cenografia, permite embocar assuntos dentro daquela atmosfera. Isso acaba sendo mais autoral porque você está controlando e não apenas seguindo pelo fluxo normal da pessoa. Hoje é muito mais comum e aceito você fazer um documentário como se fosse um Big Brother no sentido de seguir o cotidiano”, revela a diretora.
Foi misturando jazz ao samba, negando rotulações, indo do pop ao tradicional sem medo, improvisando e (en)cantando que Elza Soares superou o destino e reinventou seu caminho. “Não pode fazer, não pode fazer...Aí mesmo que eu vou lá e faço e me dou bem”, conta a artista em um determinado momento do filme. Questionada sobre o que ela canta, não titubeia em responder: “O que vier a gente canta. Eu gosto de músicas ousadas”. Elza Soares gosta mesmo é da vida.
Fonte:  JCRS. 

"AUTO DA PAIXÃO E DA ALEGRIA" Grupo Timbre de Galo - Comentátio

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Demorei, mas consegui postar um comentário sobre o espetáculo "O Auto da Paixão e da Alegria" apresentado no dia 26 de novembro em Montenegro dentro do Projeto Arte Sesc Cultura por toda a parte. "O Auto da Paixão e da Alegria" é um auto popular, onde narra as aventuras de um grupo de atores saltimbancos, que se encarrega de contar os acontecimentos bíblicos da passagem de Cristo pelo mundo.  A palavra "Auto" me remete imediatamente as encenações liturgicas, geralmente apresentadas em festas cristãs, como "Auto de Natal" ou "Auto da Páscoa", e que de certo modo não me trazem boas lembranças. Mas segundo o autor Luis Alberto de Abreu; “Autos, de acordo com a definição clássica, são composições dramáticas breves, de caráter religioso ou profano, podendo comportar elementos cômicos e jocosos...  O que vemos neste "auto" é justamente uma sobreposição do termo clássico, de um lado temos uma narrativa que remete as estórias da paixão de Cristo, e do outro, temos a utilização de uma linguagem popular que valoriza o carnaval, as festas populares nordestinas entre outros. 
Confesso que foi uma grata surpresa assistir a este espetáculo do Grupo Timbre de Galo de Passo Fundo. Primeiro que é sempre bom poder assistir a bons trabalhos realizados pelos grupos do interior do estado, o que de certo modo legitima a arte produzida longe da capital, pois, as vezes parece que o teatro produzido no interior carrega um rótulo de inferior, amador, sem qualidade, pelo fato de não estar no foco da produção na capital, longe dos holofotes e dos incentivos. Não é o que acontece com estes "galos", que transbordam alegria, competência e técnica no trabalho apresentado. Segundo que eu apenas conhecia o grupo pela trajetória, mas principalmente pelo episódio da demisssão do antigo Grupo Viramundos que foram "apunhalados" pela UPF, ato de omissão com o Grupo e com toda comunidade cultural. Mas graças a vontade de todos o grupo se reergueu e continua os seus trabalhos, agora como Timbre de Galo, e posso afirmar que estão completamente recuperados deste golpe, digo isso, pela vitalidade demonstrada em "Auto da paixão e da alegria".
O que me chama a atenção logo no início é a estrutura que o grupo dispõe, um grande palco equipado com equipamentos de som e iluminação. A estrutura do palco remete a uma alegoria utilizada no carnaval e que funciona muito bem durante a encenação. E logo na entrada dos atores, percebi outros elos com o carnaval, maior manifestação popular do Brasil. O paralelo com o carnaval aparece no cenário, na porta bandeira, nos instrumentos e canções utilizadas durante a peça. Logo no início temos a presença de um anjo Gabriel "pop", um anjo de "all star" vermelho que faz um engraçado testemunho contra os diretores de teatro, pois o ator teria medo de altura e mesmo assim foi forçado pelo diretor a fazer tal cena. Este tipo de abertura, a relação entre ator x personagem x público, perspassa todo o espetáculo, quebrando a ilusão, a identificação com a persona construída, desvelando uma teatralidade que lembra muito as teorias de Brecht, onde o ator e o espectador se mantém distanciado da fábula apresentada, através de narradores-épicos. Num determinado momento a atriz Mara Cavalheiro anuncia: "gente é teatro viu", desmitificando o caráter ilusório. Mas neste caso, o grupo, nem tampouco o diretor, não se deixaram amarrar a teorias e conceituações rígidas, pelo contrário, exploram um terreno fértil que é o teatro popular, feito na rua, transitando entre o cômico, o farsesco e o melodramático para contar a história de Cristo. Segundo o relato da atriz Beliza Marroni, todas as contribuições que os atores levaram, tudo o que servia a criação foi utilizado, sem medo de misturar, de ousar, de festejar ou de profanar. Neste auto temos a figura de Deus, do diabo e outras figuras bíblicas, construídas de modo exagerado e 
Um destaque é para a trilha e efeitos sonoros realizados ao vivo pelos atores, demonstrando um belo preparo técnico  e com vozes deslumbrantes. Posso falar em nome do Grupo Válvula de Escape que este espetáculo marcou a todos os integrantes do grupo pelo profissionalismo e pela qualidade demonstrada, que a partir de agora este grupo de Passo Fundo passa a ser um referencial em Artes Cênicas para nós.
Parabéns a coesão do elenco e pelo belíssimo trabalho apresentado e espero que possamos nos cruzar muitas vezes ainda!

OLHAR (es) DA CENA por ADRIANA BANDEIRA


Sobre a estréia de “O Assovio No Vento Escuro”-Grupo Válvula de Escape

                                                                                                               Adriana Bandeira

O Grupo Válvula de Escape estréia a peça “Assovio no Vento escuro” trazendo o texto de Clarice Lispector à expressão melhor da dramaturgia. O texto escolhido “À hora da estrela” é resistente a encenação pela riqueza de frases, de textura própria da autora. Porém, o grupo veste esta roupagem e faz disto o fio próprio de seu tecer. Parto desta constatação ao vislumbrar nos artistas, direção, figurino, técnica, trilha sonora, enfim nas cenas que nos fizeram transgredir em espaços subjetivos íntimos e próprios, a falta de objeto a ser dado como já construído. O texto, cenas e interpretação são um convite para que cada um construa suas palavras, deixando vir a tona a alma, como Clarice o fez. Quando algo corrompe a natureza da acomodação e sacode nossa falha razão, estamos diante da Arte.
É desta forma que apresento três aspectos desta vivência: a temporalidade, a palavra e a sexualidade. Prometo dizer-me de forma contextualizada; prometo dizer-me de forma rápida; prometo dizer-me...um dia, quando este assovio passar!Pois é...acredito que é esta a questão.O que hoje situo como temporalidade ,no contexto desta vivência, poderá ser refeito sempre,numa construção contínua de inscrição.Para além disto existem momentos interessantes que apresentam este tempo também como espaço.São os momentos do assovio silencioso e eles estão em cena sempre.
Clarice é interrompida pelo personagem que a toma. Ora!Ela mesma diz: não fui eu que a inventei... Ela veio a mim!Sim!São as palavras, no seu tempo, que invadem Clarice num ritmo incessante de respiração. Ela, na exterioridade do vento, das nuvens e das crianças acaba por ser encurralada num tempo diferente: o da escrita. É a primeira parte, ainda no pátio da Estação da Cultura, onde somos convidados a adentrar ao subterrâneo da construção, ao úmido beco da indignação, de onde não retornaremos iguais. Nesta visita, a temporalidade da arquitetura, na descoberta da frase pura que retrata o que sustenta a antiga espera dos trens. A estação, o tempo... é da palavra.
É com a menina que fala a menina dela mesma, com quem dialoga sobre o futuro. Em todos os momentos de ternura, curiosidade, vida, enfim, é a menina Maca que ali está.Este duplo do eu que transforma-se em outros tantos, nos mostra a verdade acerca destas questões que nos habitam.Ali,a menina de quem não consegue se desvencilhar,aquela que já sabia,pelo que lhe antecedeu na sua história, que haveria de vingar a vida crua, nos aponta a verdade sobre o tempo.E como se vinga a vida crua?
As cartas não mentem jamais. Hão de guardar em forma e cor o destino inscrito num rosto sem encanto algum. Uma falha de momentos trocados em que o cômico invade a cena no doce infortúnio da cartomante que recebe a todos, desde o início.O futuro recebe a todos, sempre.
É neste caminhar entre as cenas que se descobre ainda o convite incessante para que se vá mais fundo numa temporalidade que acaba, somente, quando a morte vem. Mas o assovio...continua.É o tempo da respiração, desde o início, a querer mais e mais...palavra.Talvez porque para Clarice respirar e escrever fosse a mesma coisa.
O texto é denso e leve, falado e lido naquilo que a leitura de fato oferece: a invenção. As palavras da escritora são transcritas, reinventadas no jogo de luz, sons, interpretação e tempo.
De fato, a angústia da criação deixa a mostra a nudez de todos que ali estão. Não há como não inventar palavras enquanto estamos na cena. E estamos todos na cena com Macabea,Clarice,Olimpico,escrita,Glória,músico,menina,morte,cartomante,futuro,solidão.Não saímos impunes.O grupo nos oferece esta condição.
A sexualidade e a morte, na mesma moeda: cara ou coroa. A menina da boneca, a mulher da feiúra, a sensualidade da outra, a solidão da prostituta.
Clarice escreve como se fosse um homem, no texto. Talvez porque para ela, somente um homem pudesse dosar sua textura fálica a ponto de limitar numa frase ou palavra, num dito ou expressão, todo o gozo de morte que há na não existência. Talvez porque somente o masculino possa apresentar o que é do feminino; talvez somente ele possa dizer quem é ela.
Na transcrição do grupo a sexualidade faz seguir “O tempo”, voz em assovio que pega pela mão a mulher Clarice e a conduz na sua nudez. É a cena que se veste de toda a feminilidade possível, guardada pelo masculino que faz casa no prazer da expressão da palavra. Ali é ela quem diz sobre um ele. O grupo libera Clarice para que fale, na voz da atriz.
Saímos estarrecidos desta estréia!As cenas apontam em cada um o gozo de por tantas vezes não estarmos em reconhecimento como sendo um ele ou ela; como não existir, não ocupar espaço, não ter peso e nem rosto. Estas formas em que nos escondemos, que por vezes fazem com que sejamos Macabéa, num dia a dia em que não enunciamos nada que diga respeito a nós mesmos.É quando, desde o início até o final,Clarice pergunta: porque morrer?
Duplo estarrecimento, para mim, já no início. É Clarice que aponta a diferença antes de descer a escada. Quer saber como escrever sem ser “lacrimejante”... Que por ser mulher, quem sabe, tudo o que diz seja desta ordem. Fala-nos, secretamente, deste choro universal a que todos somos submetidos, vez ou outra. Pois bem... é isto.É comum acolhermos um autor ou uma autora de forma diferente, num entendimento de que as mulheres que escrevem soam melosas e os homens que escrevem, dizem coisas importantes. A voz... somos. O masculino e o feminino encantados em todo o corpo e fala que deseja viver. Porque morrer? Pelo instante...pelo instante se quer morrer.
Parabenizo a todos da cena, principalmente os artistas que representaram esta expressão de um si mesmo. Parabenizo Rosani, coordenadora do espaço da Estação da Cultura, pelo acolhimento ao grupo, cedendo o “subterrâneo” que fez composição com a palavra, o tempo e o afeto. Enfim, parabenizo a mim mesma por ter estado na estréia, por ter estado no meio de tudo, numa emoção estranha de, pelo instante, imaginar dividir palavras com Clarice.
Aguardo mais desta vivência e prossigo no que ainda não sei responder: porque escrever?
Aguardo muito mais deste grupo que estréia para fazer valer.

Sobre a estréia do grupo ESCAPE: “Assovio no vento escuro”
Adriana Bandeira em 11-12-2010


ADRIANA BANDEIRA é Psicóloga, escritora e colunista do Jornal O Progresso.



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