quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

DRAMATURGIA EM FOCO: BERTOLT BRECHT Parte 4

INFELIZ O PAÍS QUE NECESSITA DE HERÓIS 

Apesar de todo esse trabalho de reflexão sobre o teatro, e principalmente de sua rejeição ao ilusionismo, Brecht cria ainda duas obras com bastante força de expressão mas que, como ele mesmo reconhece, lançam mão de alguns artifícios do teatro ilu­sionista. São as cenas básicas de Esplendor e Miséria do Terceiro Reich (Furcht und Elend des III Reiches), em 1935, e Os Fuzis da Senhora Carrar (Die Gewehre der Frau Carrar), em 1937, so­bre a guerra civil na Espanha. Ambas são peças de circunstância, destinadas à propaganda imediata, embora posteriormente tenham conseguido transcender esse objetivo para se tornarem obras importantes da dramaturgia contemporânea.
Mas é com a primeira versão da Vida de Galileu que Brecht encontra definitivamente o caminho do teatro dialético, não ilu­sionista. Considerado por muitos críticos o melhor texto da obra brechtiana, Vida de Galileu foi originalmente escrita durante o exílio do autor na Dinamarca. Sua versão mais conhecida, po­rém, é a terceira, feita em 1955, e responsável pela forma definiti­va da peça. O interesse de Brecht por Galileu datava de anos antes dessa primeira versão, já que a problemática do intelectual frente à sociedade em que vive sempre o interessou particularmente. Afirma Bernard Dort a respeito desse primeiro texto:  “. . .Galileu foi escrita, pelo menos originalmente, para servir de exemplo e de conselho aos sábios alemães tentados a abdicar seu saber nas mãos dos chefes nazistas”.
Em seguida a essa primeira versão da Vida de Galileu, Brecht iniciou uma fase bastante fecunda. Surgem Mãe Coragem (Mutter Courage und ihre kinder), em 1939, A Alma Boa de Set­suan (Der Gute Mensch von Szechuan), entre 1939 e 1941, A Resistível Ascensão de Arturo Ui (Der Aufhaltsame Ausftieg), também em 1941.
Ao escolher um personagem histórico para herói de Vida de Galileu, Bertolt Brecht procurava a explicação da atuali­dade buscando raízes no passado. Em todas as três versões da peça permanece o problema do intelectual em conflito com a so­ciedade em que vive. Na versão definitiva, terminada em 1955 a história começa com Galileu vivendo em Pádua, onde lhe da­vam liberdade para pesquisas, mas baixos salários. Para sobrevi­ver, Galileu é obrigado a dar aulas particulares, o que lhe tira o tempo destinado à pesquisa. Apropriando-se de uma luneta, até então desconhecida na Itália, passa por seu inventor e é recebido com honras em Florença, onde passa a residir.
Mas as observações de Galileu fazem com que ele volte a considerar como verdadeiro o sistema de Copérnico, segundo o qual a Terra e os astros girariam em torno do Sol, que seria imó­vel. Como essa teoria contradizia todo o sistema defendido pela Igreja Católica, que afirmava ser a Terra o centro do universo e em torno da qual tudo giraria, o sistema de Copérnico é coloca­do no Índice da Inquisição. Galileu é pressionado a deixar de crer nessa teoria. Decidido, Galileu afirma: “Quem não sabe a verdade é simplesmente um cretino. Mas quem a sabe e diz que ela é mentira, esse então é mesmo criminoso!”  Temerosos de que o fato de a Terra não ser mais o centro do universo pudesse aba­lar a fé cristã, os religiosos procuram forçar Galileu, já conhecido internacionalmente, a desistir dessa linha de pesquisa. Galileu acaba por discutir com o noivo da própria filha, que o quer dis­suadir das pesquisas, e faz com que ele rompa o casamento. Perseguido pela Inquisição, Galileu vê o Cardeal Barverini, sábio, matemático e seu amigo pessoal, subir ao trono papal, com o nome de Urbano VIII. Pressionado pela Inquisição para permitir que Galileu seja processado e torturado até abjurar sua doutrina, Urbano VIII termina por permitir que somente mostrem os ins­trumentos de tortura a Galileu. É o quanto basta. Galileu abjura, afirmando que o sistema de Copérnico é um monte de falsidades. A peça termina com Galileu vivendo num regime de semiprisao e vigilância constante, enquanto recebe a visita de seu discípulo Andrea Sarti. Este foge da Itália levando o livro de Galileu debai­xo do braço, esperando difundi-lo pelo mundo.
A história do processo de Galileu revestia-se, para Brecht, de profundas implicações. Afinal, abjurar seus princípios ou colo­car seus conhecimentos a serviço de uma causa que leve à guerra ou à destruição não são opções do sábio moderno? Além da significação histórica do fato, ele não se revestiria de uma capa ex­tremamente atual? É justo que um homem como Galileu, cons­ciente da verdade, tenha que ser rechaçado?
Mas o Galileu de Brecht possui características muito concre­tas: é um bon vivant, gosta de comer bem, de ter dinheiro. E teme a dor, ao ver os instrumentos de tortura. O personagem surge tão completo e tão integrado em sua própria história que o espectador é solicitado a compreender e julgar Galileu segundo os critérios fornecidos pelo mundo em que este viveu. E sua debi­lidade torna-se inseparável da estrutura social, como afirma o cri­tico Maurice Regnaut: . . . “a Vida de Galileu é uma desmitifi­caçào da moral. A falsa moral é, na verdade, um erro político, isso é o que Brecht ensina. A estrutura social deste momento, o estatuto filial da ciência, a debilidade do homem Galileu torna­vam possível esse erro”.
Mas Galileu é também o homem que sabe que de suas inves­tigações depende o surgimento de uma nova era. E a luta por manter o seu trabalho, as suas pesquisas, que ele trava ao longo de toda a peça. Ao colocar Galileu em cena, Bertolt Brecht colo­cava também todos os cientistas de hoje, que desvinculam os seus conhecimentos dos fins a que se destinam. Crime? Julgamento? Mesmo considerando o personagem um traidor de sua própria história, Brecht não deixa de dar a ele a dimensão exata de seu problema, quando Andrea Sarti diz: “Desgraçado o país que tem heróis” e Galileu responde:  “Desgraçado o país que necessita de heróis”.
Mas o verdadeiro centro da peça nao está simplesmente no personagem Galileu. Transcendendo a própria história narrada, o autor coloca em cena o surgimento de um novo tempo, exemplificando, com a história, todos os percalços e contradiçoes dos mo­mentos em que as mudanças ocorrem num ritmo radical e acelerado. Brecht pôs no palco a própria transformação da história por intermédio da ação dos homens.
Compreender o processo da história, compreender a atitude de Galileu, para que se possa, eventualmente, continuá-la e modi­ficá-la, é tarefa que Brecht deixa a cargo do espectador. Já que, de acordo com as palavras do próprio Brecht aos espectadores: . . . “nós os convidamos para que venham aos nossos teatros e lhes pedimos que não se esqueçam de suas ocupações (alegres ocupações), para que nos seja possível entregar o mundo e a nos­sa visão do mundo às suas mentes e aos seus corações, para que eles modifiquem o mundo a seu critério”.
Escrita em três versões diferentes, a Vida de Galileu teve praticamente três estréias. A da primeira versão foi em Zurique, em 1943, sob direção de Leonard Steckel, que também fez o papel principal. Mudando-se para os Estados Unidos, em 1945, Brecht decide trabalhar com o ator Charles Laughton numa adaptação da peça, que estreou em 1947, com direção do próprio Brecht e de Joseph Losey, em Los Angeles, no Coronet Theatre. Laugh­ton desempenhou o papel-título.
Essa segunda montagem foi fortemente influenciada pela ex­plosão da bomba atômica no final da Segunda Guerra Mundial. O         fato afetou bastante a sensibilidade de Brecht, como mostra esta sua afirmação: . . “passara a ser vergonhoso descobrir fos­se o que fosse”. A contribuição de Laughton foi essencial para   o  desenvolvimento da encenação, na qual Galileu aparecia como
um homem moderno, à frente de seu tempo, capaz de rir de tudo e de transformar em fósseis os monges romanos.
Finalmente, pressionado a abandonar os Estados Unidos de­vido a suas concepções políticas (foi acusado pelo Unamerican Activities Committee do Senado dos EUA), Brecht vai para a Suíça e posteriormente retorna à Alemanha Oriental. Em 1949, funda o Berliner Ensemble e cria seu próprio elenco, com o qual trabalharia até sua morte, em 14 de agosto de 1956Lá, decide encenar a Vida de Galileu pela segunda vez a estréia da peça no país fora em Colônia, na Alemanha Ocidental. Inicia os en­saios, mas, com seu falecimento, a peça só foi retomada meses depois por Erick Engel, tendo estreado em 1957.
Texto sempre atual, Vida de Galileu foi montado no Brasil em 1968 por José Celso Martinez Corrêa, com Claudio Corrêa e Castro no papel principal. Segundo o próprio José Celso, seu interesse nessa montagem era “mostrar que uma revolução cultu­ral sozinha não resolve absolutamente nada”. Integrando elementos de seus trabalhos anteriores, Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda e O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, que seguiam uma linha bastante criativa, o Galileu de José Celso teve uma montagem mais sóbria que aqueles espetáculos. Na verdade, a direção do texto identificava-se bastante com as propostas de Brecht, na medida em que procurava descobrir e entender os en­traves do mundo atual, para que todas as barreiras fossem supe­radas e surgisse um homem novo.

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